SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 06:05

O Gerente “ventoinha”

O calor naquele verão estava a ser intenso, abafado, muito húmido, as nossas vestes suadas, as mãos viscosas e inchadas e trabalhar naquele lugar novo, que era a nova agência bancária da Golegã, ao contrário de ser um prazer era um autêntico pesadelo. É que o ar condicionado estava permanentemente avariado e a construção não previu janelas com que houvessem pequenas entradas de ar. Era um sufoco, um abanar constante de leques e de folhas de papel e o suor escorria cara abaixo, quase em bica.

Para contrabalançar esta ingrata situação em que todos estávamos havia o senhor gerente, o “inteligente mor” daquela confraria, muito importante e exigente, autoritário quanto baste para granjear da nossa parte um profundo desprezo. Ele é que sabia tudo, podia fazer tudo e até ser incorrecto e prepotente ele pensava que podia ser.

E naquele sufoco, sua excelência saía em visita a clientes ou fosse lá o que fosse, saía por algumas horas e deixava sempre ligada no seu gabinete uma ventoinha de pé alto que dava frescura permanente para o seu assento. Os outros, os funcionários ? Ele não queria saber disso para nada.

Numa bela tarde um herói foi-se ao gabinete refrescado sem gerente e saca da ventoinha de pé alto, coloca-a mais ou menos a meio da agência e o seu acto foi abençoado e pelo menos o ventinho fresco era distribuído por todos os empregados.

De súbito, sua excelência reentrou, reparou na ventoinha, foi ao seu gabinete e faltou-lhe o tal fresquinho.

De imediato decretou que “quem retirou a ventoinha do seu gabinete, a recolocasse, sob pena de ser castigado de imediato”.

Foi a gota que levou o copo a entornar. A malta juntou-se e afrontou a excelência: “Saiba que a ventoinha não é sua mas sim nossa, pois foi-nos oferecida pelo Grupo Desportivo do Banco, para a nossa sala de convívio que era interior e não tinha ar condicionado?”. “Portanto vamos colocá-la na nossa sala e o senhor não está autorizado a mexer-lhe sem autorização da maioria !”.

A “eminência” engoliu em seco, transpirou e não teve outro remédio senão voltar ao seu gabinete e aguentar o calor como todos os outros.

Passados poucos dias o sistema de ar condicionado voltou a funcionar e voltámos a ter razoáveis condições de trabalho, mas o que é certo é que a batalha pela “ventoinha” foi uma das muitas batalhas que tivemos que vencer, para que a arrogância “lisboeta” baixasse o nível e deixasse de pensar que era um ser superior, só por ser gerente.

Os cabritos, os vinhos, as frutas e as batatas, semanalmente enchiam a bagagem da sua viatura, rumo à capital. Tudo “ofertas” que fazia o favor de aceitar.

Mas na ventoinha de pé alto, nunca mais teve a lata de tocar.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados