SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 16:15

O Padre Saraiva

Venho hoje aqui recordar-me de um amigo de infância, um amigo muito simpático e sereno que ao longo dos anos me serviu de exemplo de vida, o amigo Padre Joaquim Saraiva Abrantes, o senhor Padre Saraiva como sempre foi conhecido em Torres Novas.

Para além da sua afabilidade e humildade a todos falava sem excepção e era alguém a que podíamos com facilidade recorrer em caso de necessidade.

Lembro-me de desde muito pequeno frequentar a sua igreja de Santiago indo com a minha mãe Carminda à missa dominical e salvo erro às sextas-feiras visitar a capela do Senhor Jesus dos Lavradores.

E foi certamente numa dessas visitas que o senhor Padre Saraiva pediu a minha mãe se me deixava fazer parte dos meninos que acolitavam o senhor prior, nas novenas do mês de Maria.

E assim sucedeu. Antes das novenas reunia-me a outros rapazes, paramentava-me com uma túnica branca com uma gola azul acetinada e lá ajudávamos na cerimónia do terço em louvor a Nossa Senhora de Fátima.

Aquilo só durava o mês de Maio mas revejo-me naquelas vestes, mais parecendo santinhos sem asas.

Mais tarde o Padre Saraiva chegou a ser meu professor de Religião e Moral e de Música Coral no antigo Colégio de Andrade Corvo na Avenida João Martins de Azevedo e cativava pela sua calma e serenidade sendo a maioria dos alunos seus verdadeiros e sinceros amigos.

Era um homem que incutia respeito sem o impor e ganhava a nossa amizade com extrema facilidade.

Anos mais tarde soube da notícia da sua saída de Torres Novas e tive pena. Soube depois que tinha ido para Lisboa para a Paróquia de S. José, onde esteve a exercer sacerdócio durante mais de quarenta anos e onde tive a felicidade de o procurar e encontrar pelo menos duas vezes.

Penso que a sua actividade em Lisboa foi digna dos maiores elogios e creio ter ainda ocupado um lugar junto do Patriarcado de alguma responsabilidade.

Voltando aos tempos de menino e das novenas de Santiago, ainda hoje me recordo bem de duas coisas. A primeira era a tosse que o fumo do incenso me provocava todas as noites.

A segunda era o facto do senhor Padre Saraiva ter sempre de se socorrer de um pequeno banco, para chegar à fechadura e poder abrir o santo sacrário.

Das duas uma, ou o sacrário estava alto de mais ou o senhor padre era baixote, mas penso que as duas hipóteses estão certas e daí não vir nenhum mal ao mundo.

Tive ainda o privilégio de viver próximo da família do seu irmão, José Saraiva Abrantes, na Rua do Carreiro da Fonte, desta cidade, e nessa família sempre vi igual humildade, serenidade e muito amor.

Que me desculpem estas duas irreverentes lembranças dos meus tempos de menino.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados