SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 17:40

O Almerindo e a “dentista”

Quando era cachopo tinha as mesmas virtudes, birras e defeitos de todos os cachopos da minha rua e refiro-me à idade entre 3 e 5 anos, quando ainda por cima eu era ainda filho único e por via disso tinha os mimos e perdões de todas as maldades.

Era meu hábito convidar para a brincadeira em minha casa outros cachopos amigos e de ser eu, como dono da casa e a funcionar no meu território a impor-lhes um jogo qualquer, com regras definidas por mim como melhor me convinham.

Quando um puto queria acabar com a brincadeira e voltar a casa, aí estava eu a contrariá-lo, “agora não, brincas só mais um bocadinho que já te vais embora!”.

Alguns fugiam ao meu controlo e saíam mas outros havia mais medrosos e submissos às minhas ordens, qual pequeno ditador da minha rua.

Minha mãe Carminda repreendia-me vezes sem conta indicando-me o caminho da paz e da concórdia entre amigos, mas eu, soberano no meu mundo, rapidamente me desviava para as minhas ideias que a bem ou a mal tentava impor-lhes, sem direito a reclamações, pois ali quem mandava nas brincadeiras era eu.

E lembro-me aqui do meu amigo Almerindo, um vizinho do outro lado da Rua de Valverde. Sua mãe pouco se via e dela pouco se sabia ou falava. O rés-do-chão onde viviam apenas tinha uma janela virada para a rua, única luz e sinal de liberdade que ali havia.

Do seu pai, Manuel da Fazenda, caixeiro-viajante ao que se dizia, homem alto, bem constituído, usava sempre chapéu e fato completo e constava ser homem de bens. Visitava a casa pelo menos de quinze em quinze dias.

O Almerindo era um puto pacato e como vivia só com sua mãe e quase sem luz natural em sua casa, a cada convite meu para vir brincar para minha casa, até voava de alegria.

Brincávamos às escondidas, jogávamos à bola, às caricas e ao berlinde. Minha mãe lá continuava agarrada à máquina de costura para exercer a sua actividade de ajuntadeira de calçado e ouvia-se dizer ser uma boa profissional, face ao volume de encomendas e ao muito trabalho que tinha, pese embora ter graves problemas de visão desde muito nova.

Mas mesmo assim muitas vezes lá cantava e bem o seu fado da Amália ou da Hermínia Silva que os vizinhos ouviam com prazer. Era uma pessoa que embora pobre era muito alegre e divertida, sempre pronta a ajudar as vizinhas, nomeadamente nos serviços de extracção de dentes.

Era assim. As vizinhas recorriam a ela por ser de borla e haver bons antecedentes. As dores eram muitas. Então a boa da Carminda desinfectava a turquês com álcool puro, fazia passar no dente da paciente uma linha de cozer e atava-o ao pedal da máquina de costura. Depois a vizinha fazia força para lá e ela dava ao pedal. Este já cá canta… E nunca houve queixas de posteriores infecções.

Voltando à brincadeira, certa tarde chega o pai do Almerindo, ele é chamado a casa e a brincadeira acabava ali. Mas eu não estive de acordo, por casualidade tinha um martelo pequeno na mão e ameacei-o: “Se dás mais um passo, atiro-te o martelo à cabeça”…

Ele deu uns passos e eu, que era birrento, atirei o martelo. Confesso que não era para ferir, nem era para acertar, era só para assustar… Mas quis o diabo que desta vez eu tivesse pontaria e o resultado foi a cabeça do Almerindo partida, sangue e gritos por todo o lado e lá foi tudo em romaria para a Farmácia Calado para o curativo.

Pese embora os meus insistentes pedidos de desculpas tive dois castigos: Primeiro – Uns valentes puxões de orelhas e umas palmadas no rabo. Segundo – O Almerindo foi proibido de voltar a brincar ou a falar comigo. E foi assim até que um dia regressou salvo erro a Alvaiázere para casa do seu pai e até hoje, nunca mais o vi…

Alerto os leitores para que não tenham medo, eu era “fresco” até aos quatro anitos. Depois, confesso que nunca mais atirei nem espero atirar com um martelo à cabeça de ninguém.

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