SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 21:15

A Orquestra de Assobios (João Espanhol)

Hoje venho aqui recordar-me de uma história verídica e anedótica que se passou comigo há já bastantes anos, mais ou menos na altura em que o “velho” Teatro Virgínia do Largo do Paço deixou de ter actividade, só ali ficando a sede do Montepio de Nossa Senhora da Nazaré, e na cave e rés-do-chão dois estabelecimentos, um de Maia Carreira, uma das primeiras casas de apostas do Totobola em Torres Novas com papelaria e venda de tabacos e revistas, e outro, a antiga Casa Hespanhol, dos manos João e Manuel Joaquim, com arranjo de facas, tesouras e chapéus de chuva, para além de fabrico de bonecos muito engraçados, que ao que me lembre eram utilizados pelo senhor Cardoso (RQO) para incluir neles os seus higrómetros e termómetros, que desta forma tinham aspecto muito original.

O João José Lopes sempre teve muito jeito para a feitura de bonecos tradicionais, com fardas ribatejanas, que expunha na sua loja, toda ela com paredes em seixo brilhante, a condizer com o pavimento de muitas ruas antigas da nossa terra.

A Casa Hespanhol era ponto de encontro de muitos amigos e ponto de muitas conversas sobre a vila, o Desportivo, alguma política e as novidades locais e nacionais.

A miudagem que por ali passava ficava extasiada a ver a feitura dos bonecos e em especial a ver o João a amolar facas e tesouras e a consertar os chapéus-de-chuva, e eles deixavam-nos ali estar e por vezes connosco falavam, em tom mais ou menos anedótico e brincalhão.

Eu, como era do bairro e gostava de cantar desde os meus oito anos que por ali parava e ouvia as conversas com a malta do Niger e os seus amigos.

Certa tarde porém, o João José chamou-me e perguntou-me com ar sério se eu sabia assobiar. De imediato veio aos meus lábios uma melodia qualquer e ele aprovou, que era assim mesmo e que precisava que eu lhe fizesse um favor urgente.

Informou-me que estava a pensar formar uma “Orquestra de Assobios” e queria que eu convidasse umas dezenas de putos que tivessem “ouvido” para a música, para uma audição, a ter lugar no que restava do Virgínia velho.

Eu “comi” a ideia sem pestanejar e entusiasmado tratei de convidar ao meus amigos de bairro e de escola a estarem à porta do Teatro às 18 horas do dia seguinte, para um ensaio e não entrei em detalhes.

À hora acordada lá estavam cerca de vinte rapazolas, porque de início a orquestra era só para meninos e mais tarde se veria…

“Todos para o palco” ordenou o João José e dividiu-nos em assobios graves e assobios agudos, contando -nos logo uma anedota que nos fez

chorar a rir.

De seguida, pediu-nos para em conjunto assobiarmos a Saia da Carolina, que toda a gente conhecia.

Deu a entrada e…… tudo a rir-se, ninguém conseguia assobiar. Voltou a dar a entrada e de assobios….. nada. Só risada geral. Até que deu por findo o ensaio, tendo reprovado todos os candidatos, porque segundo ele, só quem assobiasse a sorrir poderia ser apurado perguntando-nos em ar de gozo se tínhamos acreditado em semelhante orquestra… Afinal, foi um barrete que o João nos enfiou e bem enfiado.

Ninguém levou a mal e a amizade entre nós perdura já há imensos anos e só espero que apareça alguém a acertar no problema de matemática que o João colocava a todos os miúdos e que metia um burro e sete tábuas de solho.

E por aqui acabo, antes que alguém acerte e o caldo se entorne.

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