SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 03:08

Escadinhas de Santiago – O Pátio da D. Georgina Sepodes

Já por algumas vezes aqui me tenho referido à minha infância, às minhas brincadeiras com inúmeros amigos e amigas, em bairros diversos, na Praça 5 de Outubro, nos jardins da avenida, no campo de futebol do Almonda Parque, no castelo, nas récitas, na escola, no colégio, no coral, nos conjuntos, no fado, no Zé da Ana, no Manuel do Café, na columbófila, na catequese e na JOC, enfim, se a felicidade se mede pelas brincadeiras que tivemos em pequenos, posso considerar-me um garoto feliz, que fez de mim o homem que sou hoje, de cabelos brancos ou quase calvo, de andar mais lento e mais custoso, mas que continua a lembrar-se da felicidade de puto e a ser feliz, imensamente feliz e alegre até ao resto dos meus dias, de bem com a vida até ao fim, desejando que esse venha longe, o mais longe possível.

Mas hoje quero recordar-me do muito tempo que passei na brincadeira, na Rua de Santiago, mais propriamente no terraço da nossa grande amiga, amiga de todas as crianças do bairro, a inesquecível Georgina Sepodes.

O pátio era de cimento, dava para as Escadinhas de Santiago e para a rua com o mesmo nome, tinha um tanque onde se lavava a roupa, alguns vasos de lindas flores e bancos no parapeito para observar quem passava e era muito bom para jogarmos à bola de trapos, para jogarmos com caricas e sobretudo porque tinha uma bela vista para olhar as bonitas miúdas do bairro, que ali passavam na rua e algumas subiam até ao referido terraço para dar um beijo à D. Georgina e porque não para uma troca de olhares e sorrisos com os rapazes ali presentes.

E eles eram o João Julião, o Zé pequeno, eu próprio, o Quim Carvalho, o Clotário (Tarinho), o André, o Fernando Moura neto da referida senhora, o João Manuel e o João Artur. Nunca estávamos todos pois não cabíamos no pátio, mas estávamos sempre alguns.

As meninas bonitas do bairro eram a minha Melita, a Micá, a Elizabete e a Nenita Crispim, a Amélia Nogueira, a Maria João Julião, a Zita, a Amélia Abreu e a Zeca, a Bela e a Esmeralda, as três filhas da D.Georgina e que eram um regalo para as nossas vistas.

Aquilo eram tardes e tardes de alegria e de convívio, não devendo esquecer que nesse tempo os rapazes estudavam em escolas e colégios separados das raparigas, daí o maior prazer que se sentia pela convivência em comum.

E no tempo das ameixas, quer rapazes quer raparigas, lá nos divertíamos a arremessar pedras para as ameixieiras do quintal do padre Saraiva, que depois de subtraídas serviam à maravilha para as sobremesas dos nossos lanches. Que Deus nos perdoe.

Devo realçar de entre todos o meu amigalhaço João Julião a quem estive sempre muito unido por causa da música e das canções, o que cimentou entre os dois uma amizade inquebrantável que ainda hoje perdura, pese embora algum afastamento físico que nesta altura acontece por motivos diversos.

Quando nos reencontramos ele lá me chama de “Pavarotti” e eu respondo-lhe tratando-o por “Santana”. O porquê só a gente sabe…mas deve ter a ver com a voz e com o virtuosismo dum viola célebre.

Foram horas e horas de ensaios, estávamos no tempo dos festivais da canção RTP e o João fazia sempre  belas melodias, ora totalmente de sua autoria ora musicando lindos poemas de Lúcio Vieira, um trio quase inseparável nesses anos.

Tirando a pérola musical que é a “Oração à Rua 32”, balada de sua autoria com um poema do Lúcio a que eu dei voz e que me lembre nunca foi apresentada em espectáculo público, o nosso ponto culminante sucedeu alguns anos depois, com a canção premiada com o 2º Prémio no Festival da Canção Popular de Leiria, “Inventar a Esperança”, em que o play back musical foi feito pelo Conjunto Niger e a introdução pelo nosso também grande amigo e grande músico João “Carocho”.

O prémio foram três cheques de 40 contos cada um, o que era muito bom naquela época, mas que veio a saber-se estarem “carecas” sem cobertura.

O que custou receber essa massa foi o diabo, mas no final as contas ficaram certas.

As amizades sinceras é com altos e baixos que se cimentam e eu não podia deixar de trazer-vos aqui esta “Memória” como justa homenagem aos amigos de sempre e à D. Georgina Sepodes, que tanto nos aturou e que tanto gostava de todos nós.

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