SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 20:26

Joaquim Agostinho – Um campeão de todos os portugueses

Acabada que foi a 75ª Volta a Portugal em Bicicleta e acabada também recentemente a 100ª edição do Tour de France, confesso-vos que assisti pela televisão à maioria das etapas de ambas, e sofri quando os meus favoritos sofreram e vibrei com as suas vitórias ou boas classificações.

O nosso Rui Costa fez de facto um Tour de muita categoria, vencendo duas etapas de forma convincente, depois de ter vencido por dois anos consecutivos a volta à Suiça.

É neste momento um dos dez melhores ciclistas do mundo e tem um futuro risonho à sua frente, pois é um ciclista de escola, que vai adquirindo experiência e calo suficientes para atingir os seus objectivos, que afinas são os nossos, de todos os portuguesas que gostam de ciclismo.

Já aqui recordei uma etapa que terminou em Torres Novas, na altura em que Alves Barbosa era rei e senhor nas nossas estradas.

Devo no entanto confessar que tudo isto me faz recordar o meu grande ídolo de todos os tempos, o incomparável Joaquim Agostinho, uma força da natureza, que só começou a competir depois da guerra colonial, já com 25 anos, numa prova em que, na sua pasteleira, deu água pela barba a alguns ciclistas de alguma nomeada.

Ao que me consta foi o campeão de então João Roque, quem o descobriu e de imediato o levou a treinar ao Sporting, que o recebeu de imediato, como uma dádiva caída do céu, um verdadeiro milagre.

Lembro-me de ter passado o mês de Julho em férias na Nazaré, onde estava também o meu tio João Duarte, ferrenho sportinguista como eu, no ano em que houve uma prova intitulada “Grande Prémio do Minho” e mais recordo de ler no Record de domingo, a notícia de que “Um amador, estava a ganhar tudo o que havia para ganhar”, era do Sporting e tinha força que dava para deixar todos os outros a minutos de distância.

Penso que venceu essa prova por etapas e logo aí venceu o contra relógio final com minutos de avanço e boa média.

E depois veio a  Volta a Portugal que ganhou por três vezes, veio o convite para o Tour de França, que correu por 12 vezes e onde conseguiu em 1969 ficar em 8º e vencer duas etapas, em 1970 ficar em 14º lugar, em 1971 obter o 5º lugar, em 1972 e em 1973 voltou a ser 8º na geral e venceu uma etapa, em 1974 conseguiu o 6º lugar, em 1975 o 15º lugar, a sua pior classificação, em 1977 obteve o 13º lugar, em 1978 foi 3º classificado, o mesmo sucedendo em 1979, 3º lugar e venceu uma etapa, em 1980 foi 5º e em 1983 conseguiu o 11º lugar, a sua última Volta à França.

Também correu na Vuelta à Espanha, tendo em 1973 ficado em 6º lugar, em 1974 obteve o 2º lugar ficando a 11 segundos do vencedor e vencendo duas etapas, em 1976 ficou em 7ºlugar e venceu uma etapa e em 1977 obteve o 15º lugar.

Correu no Brasil, na Colômbia, etc. e por toda a Europa obteve sempre vitórias ou posições retumbantes que muito honraram Portugal e encheu de brio os portugueses.

Pessoalmente apenas o vi “passar” uma vez, no caminho de Tomar para o Agroal, numa etapa de uma Volta a Portugal. Fui com o meu primo Mário Cotovio no seu belo Mini, parámos a viatura bem fora da estrada e ali ficámos numa subida, a ver passar os corredores, em especial o nosso Agostinho, que se reconhecia bem, pois vinha de amarelo.

E foi impressionante ver todos os outros bem levantados do selim, a puxar pelas canetas e o bom do Agostinho sentado no selim, como se aquilo fosse a descer. Uma imagem que nunca mais esquecerei.

Também numa Volta a Portugal, numa etapa de Abrantes à Figueira da Foz, parece que um ciclista do Benfica que morava ali no Rossio de Abrantes pediu autorização para ir dar uma beijoca à esposa e ao filho pequeno. Que era só aparecer isolado junto da família para dar mais sainete à cena. Obtida a concordância geral, lá foi o bom homem, deu as beijocas que tinha que dar e em vez de esperar pelos outros aí foi ele, fugindo a bom fugir, sem dar cavaco a ninguém. O bom do Joaquim, ao saber da situação ficou furioso, meteu a rapidíssima e ali foi ele em busca do fugitivo.

Chegou até ele, passou por ele e seguiu sozinho por aí fora. E as rádios nacionais, incrédulas, só informavam que em Coimbra o avanço do Agostinho para o pelotão já ia em mais de vinte minutos.

O calor era insuportável, o Joaquim ganhou na Figueira da Foz, com mais de quinze minutos de avanço, mas ainda hoje penso que o mandaram travar pois caso contrário a volta perdia todo o interesse.

Em 30 de Abril de 1984, a 300 metros da meta um cão atravessou-se no seu caminho, provocando a sua queda com fractura de crânio.

Ainda se levantou, montou a bicicleta e embora ajudado terminou a etapa. Faleceu em 10 de Maio de 1984, depois de ter estado 10 dias em coma.

Mas um atleta deste calibre, um homem do campo, uma força da natureza, de antes quebrar que torcer, nunca pode morrer na recordação de todo um povo, e por este motivo aqui o trago à memória dos mais antigos como eu, mas em especial ao conhecimento dos jovens que porventura me lerem, pois nunca se pode comparar o que é e será sempre incomparável.

Bravo campeão !

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