SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 21:17

Quem está a seguir? (na banca com humor)

 

Na minha vida de profissional da banca, que iniciei em Outubro de 1974, no Fonsecas & Burnay da Golegã, ocorreram inúmeras peripécias extra profissionais, ligadas ao convívio entre bancários da minha Agência e de outros de terras vizinhas, pois remontam ao tempo em que os bancários tinham duas horas para almoço e claro, para convívio, quase sempre no Café Central na Golegã, com os tradicionais “Bife à Central” e “Açorda de Sável”…juntando-se ali prospectores de Torres Novas, do Entroncamento, Chamusca e Santarém, pelo menos.

 

E nessas duas horas de almoço havia tempo para almoçar, para após o almoço se jogar à moedinha para ver quem pagava desde o pão ao digestivo, tempo para nos informarmos das novidades do dia junto de um ou outro colega mais informado. Aquilo dava para os que lá almoçavam e para os outros que comiam em suas casas, mas que se juntavam a nós, no restaurante, para apanhar uma pontinha de uma ou outra anedota de uma ou outra charada.

 

Havia pelo menos um, que eu me lembre, que quando chegava para almoçar já nós estávamos quase a acabar. E então, molhava pãozinho no bom molhinho aqui e ali, comia a sua azeitonazita, um naco de pão, um pouco do vinho que restava no jarro e quando o empregado lhe vinha perguntar o que queria, só respondia que queria uma bica…porque já não precisava de almoçar. Alto lá com o artista… O único azar que às vezes tinha era participar no jogo da moedinha, com mais os comensais residentes, sete ou oito, e perder, tendo de pagar as 7 ou 8 aguardentes “Cardiga Velha”, que escaldavam o colega no bolso, porque nem lhes tinha posto os lábios para lhe sentir o sabor.

 

Isto de terem acabado com as duas horas de almoço foi uma facada no convívio diário de muitos milhares de bancários, mas enfim, venceu a modernice e o engano de, dessa forma se sair mais cedo. Saía-se às 18 horas e passava a sair-se às 16,30.

 

Na realidade a esmagadora dos bancários passou a nem almoçar ou a almoçar mal e à pressa e a maioria, em vez de passar a sair às quatro e meia da tarde, ficava nos bancos até altas horas, às vezes sem jantar e calcule-se, sem auferir muitas vezes as horas extraordinárias a que tinham pleno direito.

 

Ah que belas saudades das antigas duas horas de almoço, das anedotas e da amizade que a todos nos unia, mesmo pertencendo a vários bancos. Hoje, ninguém conhece ninguém e a coisa vai tristemente ao sabor da globalização, da produtividade, das vendas, dos novos produtos, dos planos para a reforma, dos fundos, dos objectivos, passando os empregados e os clientes a não terem nome e a serem um número, mais uma peça da máquina.

 

Para terminar, cito alguns exemplos bem animados, desses anos. Um colega caixa, ao sair para a hora de almoço, fechou a casa forte e deixou lá dentro, trancado, um responsável do balcão, que batia na porta por dentro, batia, batia, mas qual quê, a malta estava toda a gozar as saudosas duas horas de almoço e ninguém o ouvia.

 

Só no regresso do almoço se deu com a bronca e tudo acabou em bem, porque o colega a todos perdoava. O mesmo personagem, pessoa muito correcta e competente profissionalmente, tinha por vezes azares relacionados com a língua portuguesa, incapaz que era de dizer um palavrão, mesmo em resposta a um colega que o merecesse. E vai daí, muitas vezes um personagem lhe colocava a sua cadeira destrancada e ao sentar-se lá ia o homem por aí abaixo…”bolas, bolas, quem foi, quem foi?” perguntava indignado, sendo a resposta materializada com um profundo silêncio.

           

Outras vezes, procurava os seus óculos, palpando a sua secretária com eles colocados a meio da cabeça, e perguntava:” Alguém, por acaso, viu por aí os meus óculos?” e a malta olhava, olhava, e o silêncio cúmplice respondia de novo, com a malta a fugir para rebentar a rir numa sala lá de dentro.

           

E termino com um episódio engraçado, por causa da língua portuguesa ser muito traiçoeira. Tinha havido uma acção de formação importante, tendente a realçar a todos, a importância primordial do cliente ao balcão. O cliente devia ser reconhecido logo que entrasse, um cumprimento, uma saudação, uma simples palavra, era fundamental para que o cliente se sentisse notado e tratado como deve ser. E todos nos esforçávamos para levar essa missão a bom termo.

           

Um dia, um colega foi à casa de banho fazer um xi-xi, e quando acabou, teve um problema com o fecho da braguilha, que emperrou e não fechava por mais que o senhor se esforçasse.

           

Tendo presente a sua missão e sentindo que o balcão estava bem composto de clientes, continuando a tentar correr o fecho, sem êxito, saiu em passo acelerado da casa de banho na direcção do balcão e, agarrado às calças apenas perguntava: Quem está a seguir? Quem está a seguir?

           

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