SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 00:11

António Gaspar Lopes (Sapateiro) – Despedida

Fui surpreendido, ao ler “O Almonda” de 26 de Abril passado, pela partida para a eternidade de um bom amigo que tive o prazer de ter durante largos anos, tantos os que com ele convivi desde pequeno, quando o António Gaspar Lopes (António Sapateiro) veio do norte e aqui passou a trabalhar, constituiu família e honradamente viveu.

Meu pai vendia solas e cabedais no Patrício e o António ali ia muitas vezes, sempre bem disposto e sempre a tratar-me por “menino”.

Ainda há bem pouco tempo, num café da cidade, lá convivemos mais um pouco, ele a tratar-me como sempre fez e eu a falar-lhe do passado, em especial da sua paixão pela columbofilia, onde foi inovador na nossa colectividade desde o primeiro ano em que concursou.

Na sua reduzida colónia tinha os seus pombos “Trofas” que do Norte trouxe e que lhe deram imensas alegrias e prémios.

Na altura quem liderava nesse desporto em Torres Novas eram os conhecidos João Lúcio Cordeiro e Orlando Minhalma e o António, com poucos pombos, não discutia os campeonatos mas tinha sempre uma palavra a dizer nas anilhas de ouro que cabiam aos pombos melhores voadores.

Conta-se até a história, que penso ser verdadeira, que num último concurso da Campanha de determinado ano, ele tinha o seu Zangalhão a discutir a anilha de ouro com um pombo do referido João Lúcio. Fizeram-se apostas, o Zangalhão nessa prova foi o seu terceiro a chegar mas o primeiro a ser marcado no constatador e dessa forma foi o pombo vencedor desse concurso e Anilha de Ouro da Campanha.

Homem alegre, arguto, amigo do seu amigo, tinha orgulho em ser um homem do Norte e de nos ter trazido algumas novidades na forma de tratar os pombos correios. Diz-se ter sido ele que para entusiasmar mais os casais que tinham ovos, punha um relógio de corda a fazer tique taque no choco e obtinha com esse sistema belos resultados porque os pais pensavam que os borrachos estavam a nascer e voavam rapidamente para o ninho.

O mesmo acontecia quando, dentro dos ovos de plástico que se usavam já nesse tempo, ele introduzia uma carocha viva na véspera da prova e o casal pensava também que os borrachos estavam para nascer e apressavam-se em chegar na prova seguinte.

Foi sapateiro de profissão, depois estabeleceu-se com uma casa de petiscos no Rossio de S. Sebastião durante alguns largos anos e aí sempre ajudado por sua esposa fez casa bem afreguesada e afamada nessa época.

A sua última actividade foi na Destilação Vinícola Torrejana, onde para além do seu serviço, treinou durante bastantes anos os pombos de José Maria Zuzarte Reis, pessoa que sempre respeitou e lhe merecia toda a amizade.

E agora, sem eu saber, sem se despedir de mim, sem nada dizer, partiu para a terra dos justos e lá estará onde Deus quiser, com as aves no coração no seu último vôo.

O António Gaspar Lopes não foi mais um homem qualquer que passou pela vida, foi um homem a sério que fez do trabalho da alegria e da amizade os seus grandes lemas.

Por isso aqui o quis relembrar, prestando uma singela mas sincera homenagem a um grande amigo meu que adoptou Torres Novas como sua terra onde toda a gente o conhecia dada a sua espontânea forma de ser.            À sua querida família, que sempre honrou e que muito amava, vão os sentidos pêsames da minha família e de muitos amigos que, tal como eu, por não saberem, não se puderam despedir do amigo António.

Que descanse em paz e até um dia…

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