SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 13:24

Tiro ao alvo – Boa pontaria !

Teria eu para aí onze anos, frequentava o ciclo liceal no Andrade Corvo, tinha como professores a Dra. Maria de Lourdes Azevedo Mendes, o Dr. Saramago, a D. Rosa (esposa do Director do colégio), o Padre Saraiva que nos dava Português e Religião e Moral e um alferes nomeado pela Escola Prática de Cavalaria da responsabilidade do capitão Virtuoso que nos dava Educação Física cumprindo assim as normas da Mocidade Portuguesa, que era levada mais a sério por uns e pouco a sério por outros.

O Colégio não tinha pavilhão e as aulas de ginástica eram dadas ao ar livre, no pátio traseiro, onde em tempos se davam sessões de cinema, tendo sido construído para tal uma enorme tela gigante (em betão) cuja parte inferior servia à maravilha de baliza para os jogos de futebol que a rapaziada ali levava a efeito.

Entretanto, numa quarta-feira o tal alferes veio com uma novidade, queria saber quem estava interessado em experimentar a sua habilidade para o tiro ao alvo.

Alguns já com alguma experiência de tiro com chumbo das carabinas aventuraram-se e atiraram de várias distâncias para um alvo que tinha marcas concêntricas e uma mouche mais escura ao centro onde quem acertasse tinha a máxima pontuação.

Eu confesso que de tiro nada percebia, hesitei, mas como vi a maioria decidida a experimentar, fiz o mesmo.

Chegada a minha vez, fiz cinco tiros e lembro-me de acertar no alvo com todos, tendo sido apurado para continuar o que não aconteceu à maioria.

Não era de Olhão mas parece que tinha boa vista e lá fui continuando a atirar, a acertar na caixa metálica do alvo até ficarmos apenas quatro para seleccionar dois, porque se iria disputar a nível local, distrital e nacional, um torneio de Tiro ao Alvo promovido por um dos jornais desportivos mais lidos de então, o Mundo Desportivo, hoje já inexistente.

Para os dois que restassem havia um prémio, iriam fazer tiro real, com bala e tudo, à carreira de tiro do quartel.

E lembro-me que do Andrade Corvo só ficámos dois, eu e o meu amigo. João Pedro Neves Clara, que andava no quinto ano, salvo erro e hoje é um reputado médico, a nível nacional.

E lá fomos nós para o quartel e lá fizemos tiro real, de pé, de joelhos e deitados, não sabendo se desta vez acertei ou não no alvo, mas valeu pelo prazer da experiência que tivemos.

A prova realizou-se num velho pavilhão dos Claras, que se situava onde é hoje o parque de estacionamento da Paróquia de Torres Novas.

Concorriam também elementos da Escola Industrial e eu ganhei na minha categoria jovem.

Depois havia a publicação no referido Mundo Desportivo e a entrega de prémios que ocorreu no Palácio da Independência em Lisboa, tendo eu ido receber uma medalha que ainda hoje guardo com estima e algum orgulho.

Lembro-me que fui de comboio para Lisboa, onde me esperaria o tal tenente, professor de ginástica.

Chegado a Lisboa esperei quase uma hora e quase se desfazia o sonho de ser medalhado.

Mas enfim lá veio o tenente, num carro de dois lugares, desportivo e dascapotável e lá me levou, não sem antes ter de fazer um desvio e arrumar no carro a sua namorada, bem bonita por sinal, não sabendo eu, ainda hoje, onde me sentei naquela curta viagem.

Lá me deixou no Palácio da Independência e seguiu à sua vida porque para ele o tiro era outro.

Depois da cerimónia regressei com um atirador da Escola Industrial, o filho mais velho do Ernesto Pinto Ângelo que tinha ido de carro com um familiar.

Fiquei com a medalha e nunca mais vi nem o tenente nem a sua bela namorada.

Os anos passaram, a vista foi-se cansando, vieram as cangalhas, a miopia apareceu e tirando uma experiência com tiro de G3 na recruta em Santarém em que até fiz tiro de primeira e uma experiência de tiro aos pratos na Meia Via, em que ganhei uma taça quase sem querer, nunca mais atirei ao alvo, aos pratos ou ao que quer que fosse.

Arrumada a arma, conclui-se aqui uma memória dos tempos de menino, que recordo com prazer, principalmente dos tempos em que tinha a pontaria afinada.

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