SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 18:26

1955 – A récita no Teatro Virgínia antigo – Parte 1

Seleccionado que fui para participar no espectáculo, imaginem como me senti orgulhoso nos meus oito anitos de idade. Aconteceu que fui escolhido para um dos principais papéis de uma opereta para cantar o fado de Vila Franca, impecavelmente trajado de campino com esporas e tudo e para ser o solista a cantar e a dançar o baião, também trajado a rigor, com uma blusa bem colorida que a minha prima Maria de Lurdes Ceboleiro me trouxe de Moçambique, um belo chapéu de palha, calça branca de bom corte e sandálias lustrosas, muito bem engraxadas por meu pai, em suma um verdadeiro baiano de entre os doze pares que preencheram aquele palco do velho Virgínia, ali no Largo do Paço e que infelizmente já não existe, a não ser recordado num painel ali implantado e de gosto algo discutível.

Tenho na minha posse o programa do espectáculo com uma capa feita à mão e que contém um desenho muito delicado a aguarela ou guache de um ramo de rosas com a iniciais T.C. e que capeia o programa interior, este já composto em tipografia. A capa está presa ao programa, com umas linhas policromadas colocadas longitudinalmente e que guardo com muito prazer.

E dizia o programa tratar-se de um “Espectáculo para Crianças” com mais de seis anos. E dizia mais, “Grandiosa e Movimentada RÉCITA DE CRIANÇAS, com a colaboração das crianças da vila e a dedicação generosa e persistente de algumas Senhora e Meninas”.

Indicam-se as datas, de 5 e 9 de Junho de 1955 e a mim faz-me de facto sentir-me um miúdo de oito anos e reviver o que foram essas duas tardes de representação e todos os ensaios e trabalho de encenação.

De ambas as vezes, a casa esteve cheia, desde a geral simples (o piolho) a 4$00 cada bilhete, à geral numerada a 6$00, as superiores a 10$00, as cadeiras da plateia a 14$00, os fauteuills a 16$00, até aos camarotes de 2ª a 40$00, de lado a 80$00 e os de frente a 100$00. Tudo isto consta no programa impresso.

A seguir vem a ordem do espectáculo.

“ I Parte – a interessante opereta em um acto,  A PRENDA DE JESUS – original de Suzana Carvalho de Almeida”.

Depois tinha os actores e as figuras que representavam e a exemplo aqui se transcrevem:

Maria de Assunção Serôdio …………………….  Gracinha

Manuel Maia Sentieiro ……………………………  D.Jorge

Maria Bernardete Alves Vieira…………………  Patusca

Pedro Jorge Alves Vieira …………………………. Pilha Galinhas

Carlos José Galamba ………………………………  Salta Pocinhas

Jorge Pinheiro ( Patrício no programa)……   Pinga Pinguinhas

Jorge Gabriel ………………………………………….   Capataz

Elisa Simplício …………………………………………  1ª Camponesa

Ana Luisa Amora…………………………………….   2ª Camponesa

Júlia Pontes……………………………………………     3ª Camponesa.

Do teor da peça nada me lembro, a não ser a canção que os três estarolas cantavam, o Pilha Galinhas, o Salta Pocinhas e o Pinga Pinguinhas (que era eu), que fazia rir toda a sala a bandeiras despregadas. Também me lembro de ver muita gente a chorar e a razão para isso devia ser do dramático do texto.

Se repararem nos nomes acima referidos, tornaram-se homens e mulheres bem conhecidos na nossa terra o mesmo acontecendo a outros “artistas” que participaram na opereta, de que respigo alguns nomes sem desprimor para os que omito. Assim é sempre bom recordar das meninas, Filomena Caldas, Margarida Alves Vieira, Ana Maria Zuzarte, Luisa Sentieiro, Maria Teresa Alho, Ana Maria Carvalho, Hermínia Silva, Teresa Canelas (será ela que pintou a capa do programa ???), Maria José Trincão, Efigénia Carreira, Ilda Jorge Gomes e Maria Amélia Abreu e dos meninos, os nomes de Abílio Alves Vieira, Carlos Alves Vieira, Rui de Oliveira Trincão, João Pedro Clara, Carlos Vidal, Carlos Lavos, Carlos Simplício, Eduardo Bué, Vitor Pereira da Rosa, José Luis Gonçalves e Higino Resende. Toda esta malta fazia de camponeses e eram figurantes na opereta, cantando quando em coro se cantava.

Na segunda parte do espectáculo reza o programa: “ II Parte – Um delicioso ACTO DE VARIEDADES, composto por diferentes números e que se intitula CENAS DE JARDIM.”

“Meninas brincando”foi o primeiro quadro dessa segunda parte, e nele participaram diversos nomes hoje adultos respeitáveis na cidade mas que por serem numerosos, ficam adiados para outro artigo sobre este espectáculo, que a curto prazo tentarei escrever.

O mesmo farei sobre os restantes quadros e sobre os mais de cinquenta jovens de oito, nove e dez anos, que também participaram.

Que os não referidos me perdoem por não os trazer aqui a este artigo, mas não estão esquecidos e a breve prazo trarei aqui a surpresa de os recordar nesses dois espectáculos inesquecíveis que entre todos, pese embora a voracidade do tempo e a separação de mil distâncias, ajudou a cimentar uma grande e sincera amizade.

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