SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 03:29

António Gavino – Um maestro, um amigo

Conheci António Gavino por causa de um festival da canção de Torres Novas, que um grupo de associados e amigos dos bombeiros torrejanos entendeu por bem levar a efeito, angariando fundos para a Associação e dando oportunidade a muitos músicos e intérpretes de Torres Novas e de toda a região ribatejana poderem mostrar a qualidade dos seus trabalhos, as suas vozes e os seus desempenhos instrumentais.

Fui levado a Santarém pelo José Manuel Cunha e pela Maria Adelaide, para que António Gavino me ouvisse e aquilatasse das minhas aptidões vocais para ingressar como vocalista da Orquestra Típica Scalabitana e parece que não me saí nada mal.

O maestro tinha uma canção que musicou e que tinha poema de António Lúcio Vieira, intitulada “Caminhos”, tocou-a ao piano no Centro Cultural Scalabitano, foi-ma ensinando e eu trauteei-a o melhor que soube. Finda a audição informou-me que tinha sido admitido e que já estava a pensar em mais uma ou duas canções para mim.

Agora, é só marcarmos ensaio e arranjares jaqueta, calça preta e camisa branca.

Assim aconteceu e lá fiquei como solista da Orquestra cerca de quatro anos e ainda conservo com orgulho a cinta e a jaqueta que já me não serve, porque a “elegância” de outrora foi ultrapassada pela curva da prosperidade abdominal.

Voltando ao Festival da Canção de Torres Novas foi o ano em que cantei “Estrada de Sol”, poema de Maria Adelaide e música do maestro.

A Maria Adelaide cantou a canção “Desperta”, com poema seu e música de A. Gavino e reporto-me ao ano em que o Festival foi ganho pelo José Manuel Cunha, com a canção “Hoje faz da vida uma canção de amor” com música também de António Gavino.

Ou seja, António Gavino ganhou os três primeiros prémios e nesse dia senti-o imensamente feliz pese embora o seu temperamento humilde e discreto. Para mim foi talvez o melhor festival da canção de Torres Novas.

O maestro gostava imenso de nós três e falava-nos com alguma frequência dos seus tempos de Moçambique em que dirigiu o coro e a Orquestra Ligeira da Rádio de Lourenço Marques onde lançou intérpretes como Alexandra e do seu orgulho em ser um goleganense de fibra, ribatejano da borda de água, a residir muitos anos em Azinhaga do Ribatejo.

Continuou ano após ano a colaborar connosco no festival da canção e no ano seguinte compôs a canção “Sabes Amigo” com poema de António Lúcio Vieira, que fez com que eu triunfasse nesse Festival.

Nessa altura foi fundada a Orquestra Típica de Mira de Aire onde estivemos eu, a Adelaide e o Zé Manel, superiormente dirigida por António Gavino, que durou cerca de dois anos.

O maestro Gavino deixou entretanto a Típica Scalabitana e soubemos que foi dirigir uma orquestra ligeira salvo erro a de Alcobaça bem como a Orquestra Típica de Rio Maior.

Mesmo com este “afastamento” musical os nossos encontros eram frequentes na vila da Golegã, onde eu exercia a minha actividade profissional e foram várias as vezes em que trocámos impressões regra geral sobre canções, no Café Central daquela vila.

A finura do seu trato, a sua elegância corporal que ninguém imaginava ter a idade que tinha, o seu humor requintado com apontamentos subtis no momento preciso, completavam o grande homem da música que foi, sendo hoje e muito justamente uma das maiores figuras da memória colectiva da cultura goleganense e ribatejana.

Ao maestro António Gavino aqui deixo a minha homenagem e a minha admiração pela sua vastíssima obra de muito boa qualidade e pelos bons momentos de convívio que tive o privilégio de gozar.

Fez o favor de ser meu amigo e isso muito me honrou.

Aquele eterno abraço, caro maestro.


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