SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 19:56

Um possível contributo do Sr. Presidente

 

Já muito se falou e não adianta continuar a carpir mágoas pela falta de credibilidade dos políticos em geral e dos portugueses em especial, bem como das, em geral pardas personagens que se movem nas suas proximidades, tendo em vista garantir o melhor brilho ao seu calçado.

Mas parece por vezes ao vulgar cidadão que se vai longe demais nos actos que concorrem para descredibilizar a politica e os políticos. O sr. Presidente da república, sendo a mais alta figura do estado, deve ser o primeiro a preocupar-se em dar o exemplo, se possível mais por actos concretos do que por palavras, pois destas estamos todos cansados e a maioria do povo de há muito que deixou de as ouvir. Contudo, mesmo em relação ás palavras, seria aconselhável ter em conta que os cidadãos em geral têm, mesmo que pouca, alguma memória e podem não ser de todo desprovidos da capacidade de pensar, com que o Criador dotou toda a espécie humana e não apenas os chicos-espertos, incluindo os da politica.

 

Vêem estas considerações a propósito do bonito discurso do Sr. Presidente nas comemorações do passado dia 10, dia de Portugal, etc, etc.. Mostrou nas palavras que então proferiu, a sua preocupação pela continuada desertificação do interior e pela necessidade de se revitalizar a nossa agricultura, invertendo a desastrosa tendência para o seu abandono, bem como do interior do país conforme temos assistido, com mais gravidade nas duas últimas décadas.

 

Há contudo um pormenor que nesse discurso parece ter escapado ao sr. Presidente, pois que a ele não se referiu: o outrora primeiro-ministro Cavaco Silva, que supomos ter sido a mesma pessoa que agora falou, foi um dos grandes obreiros das tais fatídicas mudanças, as quais hoje muito parecem preocupá-lo.

 

Até aqui, tudo bem: tal como “pensar”, “errar” também é humano. O que eu esperaria numa situação destas é que o sr. Presidente tivesse tido a coragem de admitir de alguma forma, ter sido em tempos ele (sem dúvida que com o apoio da maioria do povo), uma das figuras de proa que levaram a cabo a aceitação de uma PAC, (politica agrícola comum) que contribuiu determinantemente para o abandono dos campos e para a desertificação do interior.

E referir-se a isto talvez não tivesse sido difícil nem tão pouco, em meu entender, seria uma desonra: bastava referir que a nossa adesão á então CEE e depois ao euro, se na verdade nos proporcionou muita coisa boa, acabou por ter a prazo consequências e custos, parte dos quais na época não terão sido talvez bem avaliados. Mas a verdade é que uma vez tomada a decisão de adesão ao sistema, não poderíamos depois, nem podemos agora, fugir ao pagamento da factura que tal representou. Por outras palavras e como dizia o povo que dantes trabalhava nos campos: não se pode ter ao mesmo tempo “sol na eira e chuva no nabal”.

 

Com o tempo as circunstâncias alteram-se, o pó vai assentando no fundo e as situações vão-se aclarando. Por isso á medida que o tempo passa, dispondo-se de mais informação e melhores perspectivas dos acontecimentos em todas as suas causas, circunstâncias e consequências, podemos fazer dos mesmos um juízo mais assertivo. Que o digam as pessoas que se dedicam á investigação na área da História. O que numa dada época pode ter sido tomado como bom, pela maioria das pessoas, pode mais tarde vir a revelar-se como tendo sido afinal catastrófico em alguns aspectos.

 

Mas, caso algum dos leitores tenha possibilidade de dar este recado ao professor Cavaco Silva, quero lembrar que ele está a tempo de fazer coisas concretas para combater estes e outros males da nação que acreditamos o trazem muito preocupado. Basta que ele se disponha a dar o exemplo, começando por mudar a sua residência oficial e sede da presidência da república, para uma das muitas regiões desertificadas do interior do país, devendo numa dessas regiões a mesma ocupar uma grande e adequada área de terreno, tendo em vista poder dirigir nos seus tempos livres, uma exploração agrícola de dimensão condizente com o estatuto do seu titular.

 

Depois e para continuar a dar bons exemplos, deverá pôr a maior parte do pessoal que está afecto á presidência da república, a tratar do cultivo de searas, pomares, hortas, vinhas, olival e a limpar as áreas florestais da região onde passar a localizar-se a sua residência. A herdade deverá ser de grande dimensão e contar com adequados estábulos, pocilgas, capoeiras, pastagens, etc. Isto, é claro, depois de submeter os seus funcionários a adequadas acções de formação onde os ensinem a fazer coisas útil no domínio agrícola e do trabalho nos campos. 

 

Para além do contributo sério e directo para a resolução dos problemas que mais o preocupam, isto seria uma “chicotada psicológica” na mente deste povo meio sonâmbulo que assim, finalmente com esse bom exemplo vindo dos políticos de topo, se empenharia por certo nesse novo e nobre designo nacional de recuperação da nossa agricultura e do combate á desertificação do interior do país.

E todos os ex-presidentes, para poderem continuar a ser sustentados pelas exauridas finanças públicas, deveriam seguir de imediato o mesmo caminho. E para estes não ficarem muito isolados, em região também do interior, embora algo afastada (para poderem ter igualmente bons ares e largas áreas para cultivo), seria instalada em condições modestas mas funcionais, a assembleia da república numa adequada versão, com muito menos custos, regalias e mordomias, reduzida a menos de metade dos deputados, numero mais que suficiente para continuar as tarefas que têm vindo a desempenhar.

 

Todos estes políticos deveriam depois passar a comer no essencial do que fossem capazes de produzir. Caso isso fosse insuficiente aproveitavam para emagrecer, o que em alguns casos podia ser benéfico para a sua saúde.

 

E agora – qual cereja no topo do bolo – repare o prezado leitor numa coisa: como a maior parte do pessoal que presta serviço nas Cortes de presidentes e ex-presidentes (para além da tal assembleia agora emagrecida), iria recusar-se a viver no interior, conseguir-se-ia por esta via atingir mais um enorme ganho, para alivio dos depauperados cofres do estado e dos contribuintes: por força da redução da quantidade de pessoal, reduzir-se-ia muito o orçamento destes dispendiosos órgãos do estado. E se o seu custo caísse para menos de metade, ainda ficaria muito acima do que custam aos seus povos, algumas casas reais de diversas monarquias de países europeus, bem mais ricos e desenvolvidos que a nossa república.

 

Estas sugestões pretendem ser um contributo para ajudar a resolver rapidamente os nossos problemas. Resta agora esperar que as mesmas cheguem aos destinatários e que eles mostrem capacidade, competência e a coragem para as pôr em prática.

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