SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 15:11

Um Regime em “part-time”

Quanto mais leio e me informo, quanto mais eu observo aquilo em que se transformou o país, mais me convenço que a minha geração e as que lhe são próximas, que na legítima ânsia de viver em liberdade e no pleno usufruto de direitos cívicos, fizeram e rejubilaram com o 25 de Abril, têm hoje sobejas razões para corar de vergonha. Sim, eu digo vergonha, pelo futuro triste e sombrio que deixamos atrás de nós para os nossos filhos e para as futuras gerações.

Somos responsáveis pela nossa conivência mesmo que involuntária, quando não mesmo com a nossa cumplicidade com gente que ajudámos a eleger, mas que de modo nenhum se mostrou digna da nossa confiança. Fizemo-lo, em especial ao longo dos últimos 25 anos de desgovernação progressivamente ruinosa, com o nosso voto apático, enganados ou sugestionados por promessas falsas de acção política condizente, ou próxima das nossas ideias, com que nos embalaram em doces sonhos e nos foram fazendo crer que estavam a preparar um Portugal melhor. Foram promessas feitas por políticos que sucessivamente se revelaram incapazes de cumprirem com a sua palavra, e mesmo mentirosos geniais, que se tem vindo a constatar, apenas foram para a política para dela se servirem, tanto em proveito próprio como de seus apaniguados mais próximos.

É verdade que ao longo da última dúzia de anos, foram surgindo progressivamente vozes incómodas, que em vão tentaram ir despertando a consciência da nação, para o “desastre que esta gente preparava: Lembro por exemplo Medina Carreira, Paulo Morais e Gomes Ferreira, que o têm feito, dentro dos limites permitidos por uma comunicação social, que na sua maioria está domesticada e ao serviço dos interesses dos mesmos que nos têm desgovernado. Recentemente Gustavo Sampaio, autor ainda jovem, licenciado e estudioso nas áreas da comunicação e da política, após aturada pesquisa e estudo, publicou o livro “Os Privilegiados”, que tem sido a minha última leitura e me parece merecer ser conservado como testemunho e documento de interesse histórico, como auxiliar para os vindouros na identificação pelos nomes de grande parte dos principais responsáveis pelo descalabro, do agora agonizante regime democrático e pela perda de independência económica do país.

Para além de muitos nomes de políticos dos 3 partidos com mais responsabilidade na governação, que sobre de desonestidade ou falta de ética, não tenho visto citados na imprensa, rádio, TV ou mesmo Internet, aparecem agora ali, juntamente com dados estatísticos preocupantes, que bem me parecem explicar ou pelo menos fazer muito mais luz, sobre os já imensuráveis roubos de que tem sido vitima a maioria da população portuguesa.

De entre os dados sobre o tema, refere o autor entre muitas outras informações que:

1.         Das 20 empresas cotadas no índice PSI 20, 16 delas contam com ex-políticos em cargos de administração. Não será pela sua competência, dado o estado a que conduziram o país.

2.         As subvenções vitalícias dos políticos, foram criadas numa altura em que Portugal estava sob assistência do FMI (Mário Soares). Que foram alvo dum veto presidencial (Ramalho Eanes). Que duplicam de valor, quando o politico atinge 60 anos. Que apesar de terem sido suspensas há 8 anos, o numero de beneficiários do mesmo, continua a aumentar. Que recentemente a identidade destes,  passou a ser matéria secreta e que há políticos que a requerem e dela beneficiam sem terem sequer 50 anos.

3.         Que dos 230 deputados na Assembleia da República e que são supostos representar-nos, a maioria  (117 deles) ali estão em regime de “part-time”, tendo muitos deles como segunda (em alguns casos, a primeira) ocupação, trabalho ou cargos de diverso tipo e responsabilidade, em empresas que em grande numero são fornecedoras de bens e/ou serviços ao estado.

São estes os nossos representantes , neste regime democrático em part-time e numa república falida por este motivo; não em razão do comum dos cidadãos portugueses terem andado a viver acima das suas possibilidades, como alguns políticos irresponsáveis ou desonestos tiveram o despudor de referir.

Como continuar a dar o voto a este tipo de gente, é comprovadamente coisa que desagrada a um cada vez maior número de portugueses, para a sobrevivência da democracia, será talvez indispensável e urgente, alterar profundamente as leis e regras do regime, o que de todo parece inviável com os actuais parlamentares. Ou seja, podemos estar num beco sem saída.

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