SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 01:16

Porque odiamos Angela Merkel?

A revista TIME de 16 de Julho trazia na capa a frase “Why everybody loves to hate Angela Merkel” (Porque é que todos adoram odiar Angela Merkel). Porque é que odiamos Angela Merkel?, é uma pergunta que faço muitas vezes. Nos países do sul da Europa, mas também no Reino Unido (que aproveita qualquer oportunidade para criticar a União dos países continentais) e em França (que recentemente escolheu seguir por caminhos mais à esquerda), a figura de Angela Merkel simboliza a desgraça que se abateu sobre as economias e a austeridade que se impôs aos orçamentos de quase todas as famílias. Basta ver as manifestações gregas e a queima de bandeiras alemãs, ou as imagens manipuladas em que Merkel aparece vestida com um uniforme nazi.

Proponho que olhemos primeiro para alguns factos relativos ao percurso desta figura. Angela Merkel começou o seu percurso académico na Universidade de Leipzig, onde estudou Física. Depois prosseguiu os seus estudos e obteve o grau de doutoramento pelo Instituto de Química e Física, da Academia de Ciências em Berlim, onde de 1978 a 1990 publicou vários trabalhos de investigação na área da química-física. Embora vinda de uma área científica pouco comum no meio político, cedo começou a sua participação cívica activa.

Ainda antes da reunificação alemã, foi porta-voz do último governo do leste, eleito democraticamente. Após a reunificação, foi eleita em 1990 para o Bundestag (parlamento alemão) em representação do estado federado Mecklenburg-Vorpommern, na fronteira do norte da Alemanha. A partir daí, não se afastou mais da política parlamentar e foi ministra dos quarto e quinto governos de Helmut Kohl (1991-1994 e 1994-1998). Foi eleita Secretária Geral do CDU, partido democrata cristão alemão,  cargo que ocupou de 1998 a 2000. Nas eleições de 2005 foi eleita Chanceler e em 2009 renovou o seu mandato, sempre em coligação com outros partidos (aquilo que cá em Portugal é considerado por alguns analistas como sendo uma catástrofe para a governação). Em Julho de 2012, a popularidade da Chanceler era a mais alta desde 2009 – cerca de 60% de aprovação – votação essa feita pelo povo alemão, claro.

Para aqueles que se insurgem com veemência contra a rigidez e calculismo alemão numa altura de emergência nas finanças dos Estados europeus, é útil olhar para o papel que a Alemanha desempenha no conjunto dos países do euro. Em todas as operações do Banco Central Europeu (BCE), a Alemanha é responsável por 27,1% dos fundos disponibilizados. Por exemplo, no primeiro plano de assistência financeira grego, dos €80 mil milhões relativos à contribuição do BCE, €20 mil milhões eram fundos alemães. A juntar a isso, visto que a Alemanha representa 6% das obrigações do Fundo Monetário Internacional (FMI), também 6% dos € 30 mil milhões do FMI vieram dos cofres da Federação Alemã. As contas são semelhantes para os empréstimos português e irlandês.

Se continuarmos a somar, temos de incluir a contribuição para o Fundo Europeu de Estabilização Financeira, e as compras de dívida pública efectuadas pelo BCE (onde não só contribui com os seus 27,1% como assegura uma parte do total correspondente aos países em risco de incumprimento, entre os quais Portugal). Tudo somado, o valor das contribuições alemãs para estes mecanismos financeiros é superior a €600 mil milhões (contas feitas no início deste ano). Curiosamente, esta quantia corresponde a mais de dois meses de salários (salário médio, antes de impostos) na Alemanha. É algo que podemos ter em mente quando criticamos a postura alemã, enquanto enfrentamos o corte de rendimentos no sector público português, que é obviamente um grande golpe no orçamento das famílias mas que serve para pagar as nossas dívidas, e não as dos outros.

Repare-se que não forneci qualquer argumento a favor da política europeia alemã, das ideias defendidas pela maioria do povo alemão, entre elas a defesa da saída da Grécia da zona euro (ou, acrescento eu, de Portugal se fosse esse o caso). Tento colocar em perspectiva aquilo que nos chega todos os dias como demonstrações de tirania e imperialismo alemão. Tudo isto se passa enquanto a economia alemã continua a crescer, o défice das contas públicas é quase zero e os orçamentos das famílias continuam a aumentar, com a taxa de desemprego abaixo dos 7%. Foi por isto que a TIME deu à capa o subtítulo de “and why everybody is wrong”. Tudo junto fica: Porque é que todos adoram odiar Angela Merkel, e porque é que estão todos errados.

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