SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 12:57

Dia de Portugal

Assistimos no passado fim-de-semana às comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Aos nossos líderes políticos ouvimos declarações ignorantes (porque a ninguém tinha sido dada informação sobre um acordo que à data não existia) acerca de um empréstimo financeiro ao Reino de Espanha; e aos nossos representantes democráticos o discurso vago e sem profundidade a que infelizmente já nos habituámos. O discurso político que podemos ouvir nestes dias é centrado em taxas de juro. Debate-se a Economia como se de Ciência Económica se tratasse, e no entanto as duas são coisas bem diferentes.

As primeiras comemorações livres desta data foram em 1977, na cidade da Guarda, com Jorge de Sena e Virgílio Ferreira como oradores, sob a presidência do General Ramalho Eanes. (O contraste da qualidade dos participantes de então e de hoje permite vislumbrar a verdadeira crise em que vivemos.)

Jorge de Sena é um dos maiores intelectuais portugueses do séc. XX. Deixou o país para o exílio no Brasil em Agosto de 1959, de onde partiu seis anos depois, mais uma vez em fuga à ditadura que ali se instalou. Rumou aos Estados Unidos em 1965, tendo sido, apesar da sua formação inicial em Engenharia,  professor catedrático de Literatura em várias universidades. Morreu longe da terra que amava e odiava em Junho de 1978, em Santa Bárbara, Califórnia. Menos de um ano antes tinha participado nas comemorações do Dia de Camões na Guarda, onde proferiu um discurso que podia ter sido lido durante as comemorações a que assistimos no domingo passado.

Sena foi para além de autor, um estudioso da literatura portuguesa, em particular de Camões e de Os Lusíadas. Ajuda-nos por isso a perceber o que significa ser português: “(…) um país não é só a terra com que se identifica e a gente que vive nela e nasce nela, porque um país é isso mais a irradiação secular da humanidade que exportou. E poucos países do mundo, ao longo dos tempos, terão exportado, proporcionalmente, tanta gente como este.”, diz-nos Sena.

Diz mais: “Há neste momento, milhões de portugueses dispersos pelo mundo em mais de um continente, e não só na Europa de que são mão-de-obra. O país pensa neles, e deseja recordar-se deles. (…) O celebrar-se no presente e no passado em sua gente, o homenagear essa gente e recordá-la aonde quer que viva ou tenha vivido é um imperativo imarcescível da dignidade humana, num dos aspectos que a representa: o pertencer-se directa ou indirectamente a um povo, uma história, uma cultura, que como no caso de Portugal, foi, é e será capaz de diversificar-se em outras. Nenhum internacionalismo que se preze de ter os pés na realidade e na matéria de que somos feitos, pode negar ou ignorar essas realidades tremendas que são uma língua ou muitas, uma raça ou várias, uma cultura por mais adaptável ou capaz de absorção, que ela seja, que se identificam com um nome secular – Portugal no nosso caso, aqui e agora.”

Ninguém como Camões nos representa a todos, repito, e em particular os emigrantes, um dos quais ele foi por muitos anos, ou os exilados, outro dos quais ele foi a vida inteira, mesmo na própria pátria, sonhando sempre com um mundo melhor, menos para si mesmo que para todos os outros. Ele, o homem universal por excelência, o português estrangeirado e esquecido na distância, o emigrante e o exilado, é em Os Lusíadas e na sua obra inteira, tão imensa e tão grande, a medida do mais universal dos portugueses e do mais português dos homens do universo. Ninguém, como ele desejou representar em si mesmo a humanidade, representando tão exactamente o próprio Portugal como ele, no que Portugal possui de mais fulgurante, de mais nobre, de mais humano, de mais de tudo e todos, em todos os tempos e lugares. (…) É o exilado físico de muitos anos mas é, como todos nós, e nisso tanto ou mais o somos que outros povos, o exilado moral, clamando por justiça, por tolerância, por dedicação à pátria, por espírito de sacrifício, por unidade nacional e universal, lá onde via que o homem é, como ele disse mais que uma vez, o “bicho da terra tão pequeno” contra o qual se encarniçam os poderes do mal.”

Apetece dizer: viva Portugal, e vivam os portugueses!

PS: O colunista Miguel Esteves Cardoso escreveu, avisadamente, no domingo após o jogo da selecção nacional contra a Alemanha, que a sorte dos alemães foi desejada pelos alemães. E que o nosso azar, em contrapartida, foi inteiramente nosso.

Ser português é assim, é complicado…

João Brogueira de Sousa

Mestrando em Economia, Universidade Católica Portuguesa

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