SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 14:49

Um erro político desnecessário

 

Decorreu há dias lugar em Lisboa um colóquio subordinado ao tema, Tempos de Transição, em que foram oradores Marcelo Rebelo de Sousa e Ana Maria Caetano, filha do antigo Presidente do Conselho, Marcelo Caetano, e que tratou, precisamente, da passagem deste nosso político pela chefia do Governo.

 

O actual académico terá ali referido que Caetano era um homem excepcional, o que constitui uma indiscutível realidade, e com da qual eu mesmo, muito mais distante no contacto do que Marcelo, sempre pude perceber e testemunhar.

 

Marcelo referiu, por igual, que Caetano terá chegado ao poder dez anos mais tarde do que seria desejável. É um ponto com que não concordo completamente, porque a sua aceitação remete-nos para a possibilidade de Caetano dispor já nesse tempo mais antigo de uma visão política para o futuro das nossas antigas províncias ultramarinas, o que, de quanto li até hoje, nunca encontrei.

 

Tocava a nossa questão ultramarina demasiado fundo a vivência histórica dos portugueses, o que foi possível observar em Almeida, por via de uma histórica intervenção pública de Teófilo Carvalho dos Santos, logo ao início da violência no norte de Angola, quando ali se manifestou contra a barbárie que havia sido praticada e em favor da defesa da presença portuguesa na nossa antiga província ultramarina.

 

Claro está que tal posição veio depois a sofrer modificações, mas também é verdade que as mesmas se ficaram a dever à moda da época e não a um equacionamento capaz de quanto estava em jogo. Fora do poder da nossa vontade, o tempo foi naturalmente decorrendo, e o que hoje se pode ver da situação vivida pela maior parte do continente africano não é de molde a sufragar a iniciativa de conceder independências do modo como tiveram lugar, quando os europeus se deram conta de que poderiam explorar as riquezas daquele continente com um preço muitíssimo mais baixo.

 

O que é paradigmático é o caso do Zimbabué, desde o início da sua independência apontado como um caso de descolonização exemplar, mas onde, afinal, a sua população de pouco era detentora, porque a grande riqueza do país ficou, naturalmente, nas mãos dos históricos colonizadores. O resultado está hoje bem à vista.

E o que é verdade foi o referido em certo discurso de Caetano, a cuja luz, sem as nossas províncias ultramarinas Portugal ficaria de mão estendida perante a Europa mais desenvolvida. Precisamente o que se tem visto, e num domínio onde, afinal, nunca a nossa dita democracia concedeu aos portugueses o naturalíssimo direito de decidir o futuro do seu País.

 

Actualmente oitocentos mil portugueses vivem em Angola, sendo que o ritmo da sua chegada ali só não crescerá se for impedido, sendo que está a mostrar uma realidade histórica de há muito conhecida, ou seja, que o País não consegue um desenvolvimento harmonioso e sustentado só por si. Vistas bem as coisas, nem mesmo o dinheiro europeu chegou. Ao contrário, o que voltou foi o novo Eldorado de Angola e a generalizada emigração para as mais diversas partidas do Mundo. Precisamente o que Caetano referiu nesse seu longínquo discurso.

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