SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 15:13

De novo livros

De uma assentada e, quase sempre, desde a primeira à última página, com o coração apertado de emoção, li o livro da nova escritora, mas já premiada, Dulce Maria Cardoso “O retorno”. Comprei o livro porque na crítica literária dos jornais li dois artigos chamando a atenção para o aparecimento desta escritora e para o facto de o novo livro ser uma obra de arte. Com estas credenciais é difícil não ter curiosidade de o ler. Foi o que fiz, naturalmente.

O livro conta a história de uma família há muito em Angola, apanhada pela revolução do 25 de Abril e que se vê obrigada, muito contrariada e no último instante, a largar tudo e embarcar na ponte aérea de retorno a Portugal – a Metrópole. A narrativa é posta na boca do filho adolescente que, em discurso directo, narra a vida da família da autora do livro, então com onze anos, durante os seis ou sete meses que ficaram instalados no hotel Estoril – Sol.

Como disse fica-se com o coração nas mãos. Sobretudo quem, como eu, conheceu Angola quase imediatamente antes da independência (entre 70 e 72), e conheceu o tipo de família de que a autora faz parte.     Foram vidas duras. Mas vidas de que se podem orgulhar os seus membros porque, não há dúvida, os melhores de nós foram os que tiveram a capacidade de sacudir a pobreza em que viviam e procurar a sobrevivência digna onde fosse possível.

Dulce Maria Cardoso não só escreveu um excelente livro, um livro marcante, como chamou a atenção para a injustiça estrondosa que caiu sobre os que tiveram de retornar: – sem nada, sem culpa de nada. Fá-lo sem lamentos, expondo simplesmente o que sucedeu. E isso é suficiente para apertar o coração.

Um outro livro fantástico, e sobre a mesma temática dos retornados, mas que, em todo o caso, não me tocou tanto como o de Dulce Maria Cardoso, é o livro recentemente publicado de Aida Gomes, também ela uma escritora em estreia auspiciosa, livro que se chama “Os pretos de Pousaflores”. Narra a sua própria experiência, e dos irmãos, mulatos – filhos de pai branco que regressa à sua terra natal em Pousaflores e de mãe preta que não acompanha a família no retorno – mas que, com uma tenacidade admirável, reúne-se a ela e, em certa medida, toma conta dela. É um livro muito bom e fica-se contente por, apesar de tudo e de tanta desgraça, a autora, mulher bonita de quarenta e tal anos, seja hoje uma funcionária superior internacional e uma escritora extraordinária.

Liga estes dois romances autobiográficos não só o mesmo tema localizado no mesmo espaço de tempo mas a técnica, muito eficaz e engraçada da narrativa. Quem fala, nos dois casos, não são propriamente as personagens em discurso directo, mas o seu pensamento. O que pensam em discurso directo é que forma a narrativa. O mesmo que no romance de Philip Meyer “American Rust” traduzido na edição portuguesa literalmente (na minha opinião mal traduzido) por “Ferrugem Americana”, romance que está a ter um enorme sucesso que julgo merecido. E o mesmo, ainda, que os dois ou três artigos que recentemente li no jornal “O Torrejano” do comunista vereador Carlos Tomé. Artigos muito interessantes e bem escritos. Um deles descreve o pensamento de um empresário capitalista mal formado, vindo do nada. Parece que, na opinião do vereador comunista, só há empresários capitalistas mal formados vindos do nada. Por mim sei que existem, como prova à exuberância os exemplos Oliveira Costa, Duarte Lima, Dias Loureiro, para não falar em exilados parisienses, douradíssimos, todos os dias alvo de novas suspeitas relatadas nos jornais, mas recuso-me a aceitar que toda a pessoa que vem de baixo, a pulso, que a roda do trabalho, do valor pessoal e da sorte transformou em capitalistas, sejam todos uns bandidos desprezíveis e mal formados.

Por último não queria deixar de escrever sobre um livro pungente – O diário de Victor Klemperer. Descoberto e publicado há relativamente pouco tempo, relata o dia-a-dia de um professor universitário, judeu alemão, entre a subida ao poder de Hitler e o fim da guerra (1934- 1945). Impressiona, sobretudo, a maldade e a mesquinhes humana quando está livre para o fazer e a ela é incitada pelo poder. Klemperer perde tudo: – o emprego, a liberdade de andar de automóvel, a liberdade de se deslocar livremente, a casa. Experimenta a fome, a agressão gratuita, a prisão e vive num estado de permanente terror das buscas da Gestapo, da brutalidade das SS e de que na próxima leva de deportados para os campos de concentração a sua vez chegue. Só não acontece porque é casado com uma ariana, isto é, uma “alemã pura”, como os cães de raça e porque, no fim, teve sorte, porque uma bomba liberta-o do local onde estava acantonado, não o matando por acaso. Faz muita impressão que tudo isto se tenha passado quase ontem, na geração do meu pai.

Escreveu-me, pouco tempo depois de eu embarcar para África, o poeta amigo do meu pai e meu padrinho, José Blanc e Portugal, que era “dura a vida da minha geração, mas nós também sofremos. Basta termos filhos” e eu penso que todo o séc. vinte foi muito difícil e que tudo começou na guerra do princípio do séc. XX que pôs fim à prosperidade finalmente alcançada no final do séc. 19. E nós agora, no princípio do séc. XXI estamos na mesma. A prosperidade falsa alcançada no final do séc. XX foi-se. Será que nos espera agora a guerra com todos os seus horrores e insanidades como a dos alemães? Deus nos livre.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados