SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 23:27

Excelência

 

Tive o enorme privilégio de, num jantar de amigos, ficar sentado ao lado de um desconhecido que se revelou um achado. Mais novo do que eu meia dúzia de anos, com origem na Chamusca, respondeu à minha pergunta sobre as consequências de começar a trabalhar cedo com a frase: – pode imaginar um miúdo de dez anos a levar um estaladão menos de meia hora depois de começar a trabalhar, fugir para casa e ser reconduzido pelo próprio pai, com a cara lavada em lágrimas, ao trabalho e a desculpa: oh filho, tem que ser assim?

 

Desde esse jantar tenho pensado muito nisso e numa outra coisa terrível que é, realmente, a enorme injustiça no acto de nascimento. Todos nascemos iguais em direitos mas todos, e isso é que é a injustiça, nascemos diferentes, com qualidades distintas que nos limitam, para além da sorte ou azar do meio em que se nasce. E é por isso que este meu vizinho de jantar, apesar das condições verdadeiramente lamentáveis do seu início de vida – trabalhar aos dez anos! – é hoje um dos quarenta maiores contribuintes do concelho de Alpiarça. Não nasceu rico, mas nasceu com qualidades intelectuais e pessoais que lhe permitiram singrar, andar para a frente, pertencer à elite do País.

 

O grande desafio de sempre do País, do nosso e dos outros, é a questão do acesso à educação que permite integrar as elites. Sem elites, ou com elites deficientemente formadas, como ainda hoje é mais do que óbvio que acontece em Portugal, graças à demagogia reinante que entende erradamente o conceito de igualdade democrática, sem elites, dizia, é óbvio que o País não avançará nunca e ficará a marcar passo. E isso é tão manifesto que este meu vizinho, talvez intuitivamente, avisa os seus funcionários “se não estudares terás que sair da empresa”, não admite senão licenciados (e à experiência) e afirma, usando a palavra da moda, que “a excelência” é que o guia.

 

Confesso que esta palavra irrita-me imenso porque caiu na vulgaridade e não significa inovação nenhuma. Sempre houve maus, bons e excelentes e a vida é feita com todos. Tive um chefe que dizia que o difícil é fazer as coisas com o que existe e está disponível porque se fosse possível fazer só com os excelentes, então era facílimo. E eu penso que é essa capacidade de gerir o que há, de inovar, de ultrapassar as dificuldades que caracteriza as elites. Mas o País não avançará se a qualidade média da formação das pessoas não progredir, se não existir, usando um jargão também em moda, uma “massa crítica” de sabedoria e excelência pronta a ser utilizada no progresso do País.

 

No tempo dos meus pais, como salientou o meu vizinho de mesa, a única possibilidade de um miúdo esperto e pobre sair do buraco da pobreza e singrar, era se o professor da aldeia puxasse por ele, considerasse um crime mantê-lo atado à ignorância e o incentivasse, a ele e aos pais, a andar para a frente. Hoje, felizmente, isso já não é assim porque todos podem chegar ao nono ano e, depois daí, a vontade própria conta muito e o mínimo já está adquirido.

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