SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 15:56

Crise

Sento-me a olhar o mar e deixo-me envolver pela areia. Ao longe a barra, na baia calma as motas de água fazem espuma e um barulho ensurdecedor. Uma miúda dos países de leste aparece, olhos muito esbugalhados numa cara triste, a pedir dinheiro. Sem dar por isso recordo-me de quando tinha a idade dela, talvez há duas ou três décadas. Recordação que têm aquela patine dum postal a preto e branco… Era uma época de abundância, o que faltava em dinheiro sobrava em energia. Na praia misturados com os limos apareciam por vezes ovos de cação e dentro daqueles pequenos invólucros, como pequenos cartuxos, víamos  as crias dos peixes que se tornariam depois os predadores dos oceanos e por vezes, quando ainda estavam vivos, chegávamos a libertar esses tubarões em miniatura. Puxavam-se redes na praia e era uma alegria ver os salmonetes, linguados, estranhos caranguejos cheios de limos, peixe aranhas, e toda a arraia-miúda dos mares a cintilar como moedas numa arca de tesouros. As dunas estendiam-se até perder de vista e viam-se rastos dos coelhos por entre as moitas das camarinhas. O mar dava-nos ainda lagostas e no cais viam-se cardumes de peixinhos incontáveis que brilhavam como pequenos raios de sol. Já havia barracas na praia mas a areia e o mar parece que se prolongavam para além do paredão pelas casas dos veraneantes, em sebes de tamargueira, muito antes destes prédios todos com vista privilegiada para a baia e que agora exibem cartazes de aluguer ou arrendamento. Os barcos arrumavam-se pela praia, sem necessidade desta disciplina que delimita com boias os locais do banho e os corredores de acesso das gaivotas para dentro da baia onde ainda atracam veleiros. Há ainda quatro ou cinco botes que são um misto de barco a remos com vela e com motor e que foi a primeira embarcação em que saí à barra. Traineiras muito poucas e quase todas da apanha submarina de algas, que vai rapando o fundo do mar e provavelmente também os locais de abrigo dos peixes e dos crustáceos. Olho para as dunas e trazem-me também recordações de passeios em que almoçávamos na praia e depois íamos a pé até à praia de S.Roque onde receava tomar banho, não pelo mar, mas pelas correolas  essas algas castanhas que cresciam agarradas nas rochas e roçavam no corpo como dedos de monstros marinhos. Agora há estradas por toda a parte e muitas delas levam a local nenhum como aquela que desce para a praia da gralha ou esta outra que corta o cimo das dunas. Dantes qualquer um desses locais estava facilmente ao alcance de todos bastando para isso um pequeno esforço com a recompensa da ilusão de chegarmos a um local onde não iam as outras pessoas. Hoje encontramos o lixo dos outros porque estes locais apesar de acesso motorizado, não estão ainda suficientemente próximos para a recolha regular do lixo. Chega de recordações dessa altura em que comecei a ir discotecas  e regressar a pé pelas duas da manhã. Vou repetir um ritual! Na altura parávamos nos cafés e comíamos uma crise, creio que ainda não se falava de hambúrgueres. Lembro-me bem desse prato barato: tão-somente batatas acabadas de fritar acompanhadas de um ovo estrelado. Mas agora até a crise evoluiu, as batatas são précongeladas, o ovo tem a gema quase tão pálida como a clara e- estranha crise esta!- vem acompanhada de salsicha, que (já se sabe!) encarece o prato …

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