SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 21:23

Uma estória de cheias

 

O campo enche sem parar. Deixa-se uma marca: é engolida pelas águas. Logo outra que também se afoga. O vento sopra e marulha no combro do rio com sede de destruir o trabalho dos homens. Engole a terra e deixa areia. Depois chegam os dias azuis, mas a cheia engrossa ainda. Não são as águas do Almonda de margens elevadas, transformado num canal com o seu leito regularizado, sem meandros para que passe mais rápido em direcção à foz, para que não se espreguice ou boceje lentamente pela lezíria. Agora é o Tejo que engrossa devido à chuva que caiu na sua imensa bacia hidrográfica quase do tamanho de Portugal. Primeiro as barragens seguraram os milhões de gotas de água que caíram do céu e, quando cada uma se uniu a todas as outras, a água foi libertada de rompante, como um castelo de cartas. No seu percurso, desde o céu até ao mar, engoliu sofregamente grande parte do campo, encobrindo valas e estradas, deixando apenas as árvores acima dos valadões e ilhas de salgueiros como penínsulas e arquipélagos na imensidão dos oceanos.

 Agora que a terra começa reclamar as várzeas alagadas lembro-me de uma estória de outras cheias, mais ou menos…

 

Uma reportagem de televisão! Há quantos anos atrás? Terá sido no princípio duma Primavera em dia luminoso e sereno. A repórter sai do barco ainda a oscilar: saia curta, botins pretos, esbelta de cabelos compridos. Chapinha um pouco e chega à povoação que se ergue tal o bojo dum navio naufragado. Vinda da cidade grande parece tão perdida no campo como uma andorinha entre arranha-céus. Chegam primeiro imagens da escala das cheias, semi-submersa. Depois a figura dum homem velho, sentado calmamente num banco, ainda mais calmo que a calma das águas sem ondulação. A repórter vem à procura da desgraça, ouvir os choros das pessoas de casas inundadas, o desespero do agricultor sem seara, a ira do pastor sem pasto, os gritos da mãe com o filho afogado… Ao invés dá de chapa com aquele velho sentado … Talvez pense que está acabrunhado; impotente perante a dimensão da tragédia. Estende-lhe o microfone para levar ao País inteiro as imagens em primeira-mão e pergunta-lhe à queima-roupa: então a cheia é uma grande desgraça? O homem olha-a sem surpresa e responde-lhe calmamente que não pelo contrário. Ela hesita um instante mas volta à carga: então agora não podem fazer nada… Minha senhora, nós somos agricultores, ainda não é tarde para as culturas de Primavera! Mas a cheia não estraga os campos? A água vai ser precisa no Verão, quando for pouca, e agora até deixa alimento para as terras. Ela não compreende aquela calma tão distante do bulício da cidade numa pequena aldeia rodeada pelas águas, e insiste: mas  o que é que podem fazer? Ele sorri para dentro de si mesmo como uma gota de orvalho aos primeiros raios de sol. Agora? O que fazemos? Vamos a casa dos vizinhos e damos uma ajuda, depois bebemos um copo; o vizinho vem a nossa casa, dá-nos uma ajuda e bebe um copo! Ela ainda não percebeu a evidência: que aquele homem, aquela aldeia, o campo todo em seu redor, sempre viveu com a cheia e que foi a regular força das águas a moldar a paisagem e a gente… Tenta uma outra vez imbuída no espírito da reportagem, mas agora menos segura de si: mas vocês estão aqui isolados, não podem sair daqui enquanto a água não descer e isso é mau. O velho perde o olhar pelos campos alagados, chega um barco carregado de fataça, meia-dúzia de cabeças azuis perseguem uma fêmea, ouve-se uma cegonha a gloterar em cima dum freixo… Só então lhe responde e as suas palavras deixam uma espécie de eco, como os círculos deixados por uma pedra que se atira a um lago calmo. Mau? O campo todo alagado? Saiba a senhora que esta é uma cheia boa, já cá veio o Primeiro-ministro e o Presidente da Republica…

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