SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 10:36

Pescador

 

Tem a barba por desfazer com três ou quatro dias. Barba que não chega ainda a ser barba. Seara acabada de nascer talvez que se advinha que será continuação da cabeleira branca. Que idade tem? Pergunto-lhe! Ilude-me, talvez com receio de se achar suficientemente velho para ser meu avó. Está sentado à minha frente. Sabe que eu já não vejo: dum olho tenho cataratas e do outro vejo ainda pior porque levei um coice duma égua. O médico já me disse que se me operasse a um era certo que ficava sem ver nada do outro. Estamos os dois a almoçar. Primeiro meia dose de enguias grelhadas. Lambemos distraidamente os beiços e pingam nos dedos. Agora atacamos uma fataça. O vinho tinto repincha no copo. Não se calca vinho. Posso beber um copinho à refeição, engole-o com a sofreguidão dum peixe fora de água. À cautela veio apenas meio jarro. Lembro-me bem! Como é possível já ter passado mais de vinte anos. Não os vejo na cara dele mas sinto-os na figura que me aparece do outro lado do espelho. Lanço-lhe uma rede à espera de pescar algumas histórias dum tempo diferente muito antes de eu ser figura de gente. Primeiro uma nassa, dessas redes de apanhar enguias e outros peixes, armadas como um funil, viradas contra a corrente. Fala-me suavemente como as águas duma cheia que calmamente vão deixando o campo à vista. Foi o primeiro pescador que conheci. Fui feito no paul e ri-se. Eu já lhe ouvi esta história enquanto manejava a vara, com uma mestria desconhecida para mim acabado de chegar da cidade grande. Foi dentro do leito do barco… Desfia o rosário dum tempo que já passou e que ele também só ouviu contar. Uma vez apanhei uma lampreia quem a comeu foi um doutor, eu nunca provei tal peixe. A fataça vai pelo estreito; ensaio uma garfada de salada. Ele cala-se. Torno a tentar a sorte desta vez com um tresmalho, rede de emalhar. Sempre respeitou as regras: não pode pescar aqui. Não pesco! E não pescava! Não deixou por isso de apanhar peixe porque sabia bem as artimanhas.

 

Pescava sável? Não! Eu sempre fui pescador do paul, sável é peixe do Tejo, nem sável nem savelha. Como relâmpagos surgem-me imagens: a rede a escorrer água, o barco dele na imensidão da cheia tão imponente como um transatlântico. Ali vem uma carpa, uns ruivacos, raios partam as saramantigas bichos nojentos. Tornamos a atacar a pescaria do prato, aos poucos só vai ficando a espinha. Tenho sede: não é vontade de beber mas de ouvir as suas palavras. Lanço agora uma tarrafa: deixo-a bater suavemente na água e descair sobre o cardume de fataças. Depois puxo lentamente o atilho para não espantar o peixe. Ele percebe a minha sede mas não me dessedenta logo. Ergue lentamente o copo, uma ametade, e bebe um trago como uma golfada de ar. Conta-me como começou a pescar no barco de outro pescador. È agora o tempo de experimentar o remolhão a ver se engano alguma enguia. A fataça é agora comida de gato pouco mais que espinha. Apanho enguias em barda deixo-me estar calado. Ele fala, orador perfeito para quem quer ouvir. Gesticula para dar mais ênfase a uma ideia, para pintar melhor um caso.

 

Olho os seus olhos cinzentos que já pouco vêem. Nunca deixou o sorriso alegre tão colorido como a asa dum guarda-rios. Onde estão os peixes todos que apanhou ao longo da vida. Outros acabam com a vida dos rios, não este velho pescador, mas nós desta geração que pinta as águas da cor da morte.

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