SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 22:23

Diz-se da terra tudo comerás…

 

Apolinário Moita Cebola… Era um homem baixo e engelhado, ladino, com um olhar divertido e atento. Aprendi tanto com ele como com todos os doutores, engenheiros e arquitectos que conheci no Paul. Não lia nem escrevia. Não lhe perguntei a idade; penso que terá nascido pelos anos vinte do século passado e morreu há uns dez anos. Quando nasceu ainda não tinha sido necessário inventar a palavra biodegradável simplesmente porque, mais ou menos, vivia de acordo com as regras da natureza. Produzia pouco ou nenhum lixo e reaproveitava-o. Agora já não faz sentido a frase que ele me ensinou e que expressa a lei da conservação da matéria de Lavoisier , nada se perde, nada se cria tudo se transforma , ou até o preceito bíblico do Eclesiaste , todos saíram do pó e ao pó voltam todos. Agora vivemos numa sociedade que não se consegue desfazer do lixo. Quanto mais desenvolvida é uma sociedade tanto mais lixo produz. Quantas toneladas produzimos diariamente? Quando deixa de haver recolha de lixo a sociedade sufoca nos seus próprios dejecto! Fala-se e pratica-se cada vez mais a reciclagem o que é animador. Temos até que pagar (não acho mal!), uma tarifa, englobada na factura da água, para a recolha  dos resíduos sólidos. Será isto suficiente? Olhem  e vejam o estado do rio Almonda cheio de plásticos, os passeios depois de uma manhã de mercado. Desfrutem a serra, sigam um trilho pedestre e, a par com as belezas naturais, deparem-se com a figura grotesca de um frigorifico esventrado. Há uns tempos, num sítio à beira da estrada onde era habitual ser despejado lixo fez-se um parque de merendas. A malta vai de carro, passa por contentores, tanto antes como depois. Apesar disso, local ficou cheio de lixo. Depois de diversas peripécias foi lá colocado um contentor e coisa resolveu-se. Só que o contentor está mesmo no limite do concelho e o carro de recolha, para lá chegar, com três homens, gasta uma boa meia hora entre o ir e voltar. Temos que ser nós todos a pagar a incúria de alguns? Até há bem pouco tempo quando queria livrar-me de algum lixo maior, colchões por exemplo, ia até ao ecoponto, perto da ETAR. Outro dia quase que tive que pedir por favor para deixar o lixo que levava! Temos de ser todos a mudar de atitude. As entidades oficiais têm responsabilidade mas acredito que é principalmente uma responsabilidade individual! Agora somos bombardeados com lixo de toda a espécie especialmente de plásticos. É mais barato (bendita era do petróleo!) fabricar um saco de plástico do que reciclar um já usado. Os supermercados, felizmente apenas alguns, bombardeiam-nos com sacos de plástico e parece que ganhou poucos adeptos a ideia de levar de casa um saco de compras. Imaginem um saco de plástico à deriva no rio Almonda até ao Tejo, flutua para o mar, como não se degrada as correntes oceânicas pegam nele e, numa praia de Cabo Verde, uma tartaruga come-o pensando que é uma alforreca e depois morre porque não é capaz de o digerir. Nas Berlengas, certas espécies de plantas que apenas lá existem, estão ameaçadas pelos dejectos das gaivotas, e  estas proliferam principalmente devido às lixeiras a céu aberto. È certo que já se selaram muitas lixeiras mas não chega!

 

Antes que a sociedade se transformava numa imensa lixeira em nós temos de procurar comida no próprio lixo num mundo conspurcado, temos de ser todos a evitar este pesadelo… Então continuará afazer sentido a frase que me ensinou o saudoso Sr. Apolinário. Diz-se da terra, tudo comerás e tudo criarás.

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