SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 15:41

O rio da minha aldeia

 

A notícia não é, infelizmente, nova. Já tem mais de 20 anos. Qual é a noticia? O ribeiro da Boa Água continua poluidíssimo. Ribeiro é uma força de expressão porque na realidade não passa de uma vala a céu aberto. As valas são criadas pelo homem com funções de drenagem. Os ribeiros são criados pela natureza e é a água que escolhe o caminho. Será portanto um ribeiro.

 

Dantes descalçava-me e percorria o seu leito à procura de ninhos e rãs. Nessa altura, teria dezassete anos, o ribeiro morria no verão, mas era uma morte temporária que trazia consigo a promessa do renascimento com as chuvas. Agora entristeço-me ao pensar que a minha filha nunca conheceu aquele ribeiro, nauseabundo e fétido durante todo o ano. A geração dos nossos filhos vai, possivelmente, herdar um troço do concelho envenenado e sem vida, às portas da cidade. A saúde pública está em risco! Experimentem passar sobre a ponte antes do Nicho e olhem! Volta não volta denuncio a situação para a direcção do serviço de protecção da natureza e do ambiente. O número, gratuito, é o 808200520. A 17 de Novembro do ano passado responderam-me no seguimento duma dessas denúncias: após averiguações, e sendo conhecedora do problema, essa entidade, efectuou novamente um relatório detalhado para Inspecção-Geral do Ambiente e do Ordenamento do Território entre outras entidades competentes.

 

Tudo continua na mesma! Recentemente efectuei nova queixa. Tornaram a responder por escrito: Foi apurado que o Ribeiro tem como caudal a descarga efectuada pela Estação de Tratamento de Águas Residuais da empresa “Fabrióleo” estando devidamente licenciada para o efeito. Extraordinário! Reconhece-se o problema identifica-se a causa e o que se faz? Aparentemente nada! Será que a empresa, identificada no documento oficial, descarrega apenas durante a noite e durante o dia deixa correr água limpa para que não ser apanhada em flagrante delito? Mas então está à vista como as margens do ribeiro estão sujas, os poços na sua proximidade contaminados? A ser esta empresa a causadora do problema, que desculpa têm as entidades oficiais para justificar que, tão flagrantemente, um particular se aproprie, e estrague irremediavelmente, um bem comum? Não é possível estabelecer a causa e o efeito? Existem inconfessáveis razões e compadrios? Acredito que não! Então expliquem como é que o estado, tão zeloso na imposição do cumprimento das leis aos cidadãos, falha redondamente na sua função de fiscalização? É letra morta o artigo 66º da constituição que diz: Todos têm direito a um ambiente de vida humano, sadio e ecologicamente equilibrado e o dever do defender, e incumbe ao estado prevenir e controlar a poluição e os seus efeitos?

 

Gostaria de terminar com uma mensagem de esperança que dessa vida às palavras de Alberto Caeiro, mas não é possível! – O Tejo desce de Espanha / E o Tejo entra no mar em Portugal / Toda a gente sabe isso / Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia / E para onde ele vai / E donde ele vem / E por isso, porque pertence a menos gente / É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

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