SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 12:23

Vai começar a festa!

Parece-me que começou, neste país cabisbaixo o carrossel eleitoral. Parece-me, não tenho a certeza, porque nestes tempos que por aí vão tudo é incerto e, o que era verdade ontem, hoje já é refinada mentira. Mas o corpo partidário parece ganhar uma agitação nova; esse corpo que se apoderou parasitariamente de todos os outros corpos, contorce-se em novos ademanes e torneia-se em formas convidativas, em apelo de sedução.

 

Começa a andar no ar um cheiro a suor. Sente-se por todo o lado um odor a suor partidário fruto de uma inusitada azáfama política. E há discursos, mesas redondas, conferências de imprensa, inaugurações, muitas inaugurações. Cartazes guardados no sótão dos partidos aparecem solicitando leitura, bandeiras enroladas ao pau, desfraldam-se e agitam-se como promissoras searas. A voz engrossa, a palavra sai em requebros apelativos, o gesto ganha movimentos de ternurento acolhimento.

 

Cheira-me a um ar renovado de promessas e a vida é-me apresentada como uma Primavera que há-de vir, já amanhã, para ficar para sempre. Gostamos todos desta festa.

 

Aqui planta-se uma promessa, ali outra e outra ali. Há um gesto de carinho atirado a uma criança, uma palavra de simpatia a uma velhinha, um abraço a uma vendedeira de peixe, um beijo a uma comerciante de fruta. Hão-de calcorrear-se quilómetros. Hão-de tomar-se toneladas de pastilhas para amaciar a voz e afinar a garganta. Ia-me esquecendo de referir… a banda a tocar, a música tonitruante e os papalvos a ouvir e a olhar. A olhar, a olhar, bovinamente, sem pensar. É a festa!

 

Ah! E os jovens e os velhinhos estarão no centro dos discursos como primeiríssima preocupação. Não serão esquecidos, nos dias que correm, os desempregados e os escravos do costume.

 

Cheira-me. Desde há uns dias que um odor diferente anda no ar. O cheiro é a suor lavado, desse suor que toma banho todos os dias e usa perfumes caros e ignora a dura realidade do dia a dia porque essa lhe passa ao lado.

 

Anda no ar esse cheiro de propaganda que, de tão intenso, abafa o cheiro da democracia. Se é que esta ainda cheira.

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