SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 07:51

Outro lamentoso choro de Cardílio

 

Cardílio está velho e parece que todo o mundo envelheceu com ele. Tudo está em decadência e até os tempos atmosféricos andam desnorteados. Se ele não soubesse de certeza certa que Roma é eterna, diria que o império está a chegar ao fim.

 

As legiões debandam e abandonam as fronteiras à cobiça de todos os povos. Sucedem-se os imperadores, cada vez mais fracos, ignorantes e incapazes. As leis multiplicam-se mas não se aplicam. Os impostos aumentam, são um roubo. Os campos abandonados, com uma agricultura decrépita. As estradas são inseguras, há ladrões por todo o lado, campeia o banditismo Uma população sem trabalho vive do subsídio estatal. Esboroa-se toda a sociedade entregue ao devaneio, sem disciplina, sem fidelidade ao compromisso. Há uma verdade para cada momento, uma moeda para cada situação, almas e corpos estão à venda.

           

Cardílio está velho. A sua villa junto ao Monda está coberta de silvas. Calou-se o lagar, parou o moinho. O celeiro  entrou em ruína e está vazio de cereais. A sebe de alecrim e buxo cresce sem regra, sem mãos que a recortem e aparem. Os escravos converteram-se a uma religião nova que tem como símbolos uma cruz, um peixe e um cordeiro, eles dizem que todos os homens são iguais e que agora já não há senhor nem escravo. O culto dos antepassados está proibido e a impiedade é prática corrente, os deuses que fizeram a grandeza do império morreram. Então, isto não é mesmo o fim do mundo profetizado pelos livros sibilinos?

           

Cardílio está velho, lentamente deambula pelo jardim outrora povoado de perfumadas flores. Está dentro da noite e, se chamar, ninguém ouvirá a sua voz. Só o coaxar das rãs, no pântano que já foi lago, perturba o silêncio. «Isto está a chegar ao fim» – pensa Cardílio. A desordem instalou-se não só na villa mas em todo o império. Há um sentimento de ocaso ou da noite dentro da noite.

             

Cardílo perscruta o mais ínfimo rumor. Mas nenhuns passos se aproximam. Os amigos debandaram. Nem a festa, nem festivos banquetes. Ele sabe que há um tempo para estar aqui e outro para partir. Sem regresso, nunca há regresso. Turris, a cidade tão próxima, está cada vez mais distante. Cardílio está velho e só, mas mesmo assim, sentado sobre uma coluna partida, volta-se para o lugar de onde nasce o sol.

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