SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 17:34

Chancelaria: História e Cultura de um Povo (2/6)

 

A partir do século XX, nas alturas de maior oferta de trabalho, os homens escolhiam os patrões que davam bebida ao longo do dia enquanto trabalhavam. Por seu lado, os patrões seleccionavam o pior vinho da colheita para esse fim. Alguns assalariados preferiam uma jorna mais reduzida em troca da bebida.

 

A partir dos anos 20 começaram a surgir angariadores de pessoal para campanhas a distâncias muito superiores às habituais. Os patrões garantiam os transportes, de comboio, em camionetas de carga próprias, ou em autocarros alugados. Reunido o número de pessoal, “a que se dava o nome de Ranchos”, concentravam-se no local de partida, há hora estabelecida, partindo rumo aos locais do contrato, tendo como destino habitual o concelho de Alenquer, para a campanha das vindimas, entre outras. Sobretudo os jovens partiam em enorme algazarra, manifestando assim a sua alegria pelo facto de irem conviver juntos durante a campanha. Na Estremadura e Ribatejo, a estes ranchos de trabalhadores davam o nome de “Gaibéus”.  

 

As “cachopas”, apenas eram autorizadas a partir acompanhadas pelos pais, ou por um destes. Enquanto os rapazes, a partir dos 18 anos de idade, tinham a liberdade de escolher os patrões. Tinham era, como dever, trabalhar. O que não era difícil era entrar-lhes na mente, dado que nasciam e cresciam nesse ambiente.

 

Os elementos do rancho levavam o maior número de comestíveis possível. As mulheres, na véspera da partida, cosiam uma fornada de pão de milho, que arrumavam com carinho no cabaz de “verga” pintado de grená, conhecido na época por “cabaz de viagem”. Embrulhavam depois o pão em panos, para que se mantivesse em condições para consumo o maior espaço possível de tempo. Alem do pão, alguns compravam a quantidade de merceeirias que entendiam necessárias para o período da campanha em causa. Compras efectuadas normalmente na merceeiria do saudoso senhor António Dias da Silva. Em muitos casos para pagar depois da campanha.

 

Os ranchos eram alojados em instalações construídas especificamente para esse fim. Tratava-se de enormes barracões com dois grupos de camaratas junto às paredes laterais, com um corredor ao centro. Logicamente, as mulheres eram alojadas em separado. “Às referidas instalações davam o nome de quartéis”. (escusado será dizer que os casais, mesmo alimentando-se bem, andavam em jejum até ao final das campanhas).

 

Como era habitual a alegria fazia parte das gentes de Chancelaria. À noite, enquanto os pais cozinhavam o jantar, os jovens reuniam-se junto dos tocadores de concertina e harmónio, aproveitando o tempo para dançar. Os tocadores de concertina eram seus colegas de trabalho, integrados noutros ranchos vindos normalmente das Beiras e da região de Pombal.

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