SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 12:27

Chancelaria: História e Cultura de um Povo (1/6)

 

A aldeia de Chancelaria teve o seu maior fluxo de povoamento após a instalação da “Chancelaria”, antes da formação da nacionalidade. A presença do Chanceler deu origem a que os povos se concentrassem junto da “Chancelaria” para melhor protecção e garantia de trabalho. A aldeia de Chancelaria foi povoada sobretudo por povos vindos da região da lezíria do Tejo, “Borda d’água”, fugindo às cheias que lhes retiravam a possibilidade de trabalhar para sustento das suas famílias. Juntos vinham também pastores com seus rebanhos e suas famílias. A estes povos foram-se juntando outros nativos da região serrana, “Serra d, Aire”, entre outros. A concentração destes povos na aldeia, originou uma mais valia multicultural que só foi quebrada na década de 60, com a emigração de quase metade da população para França.

 

Até à Idade Média o povo da aldeia vivia sobretudo da agricultura de subsistência. A partir daí, até finais da década de 50 do século passado, passaram também a trabalhar por conta de outrem na qualidade de assalariados “Jornaleiros”. Esta Aldeia foi a maior fornecedora de mão de obra agrícola da região até finais da década de 50 do século passado. Tendo como local de trabalho mais próximo a Quinta dos Marécos, localizada a cerca de 800 metros da aldeia. Deslocavam-se também para outras casas agrícolas do nosso concelho, Golegã e Chamusca, onde pernoitavam durante a semana. Deslocavam-se apenas à aldeia aos domingos para reabastecimento, havendo também casais que se abasteciam nos locais onde trabalhavam, cosiam o pão nos fornos dos patrões, construídos para esse fim, existindo também muitos casos em que o contrato incluía alimentação. Os assalariados com esta modalidade, apenas regressavam à aldeia após as campanhas, nomeadamente das sementeiras de cereais, amanhos e curas das vinhas, ceifas, vindimas, colheita da azeitona, lagaragem, e mais tarde, do tomate.

 

A alimentação na época tinha como base o pão feito com farinha de milho. Este pão acompanhava o bacalhau, toucinho, petingas secas ao sol, entre outros raros condutos. A estes condutos juntavam-se outros alimentos colhidos directamente da terra. O povo da aldeia de Chancelaria vivia pobre, mas com uma alegria impar. Qualquer instrumento bastava para transmitir som para dançar. Desde o pífaro, flauta, guitarra, banjo, bandolim, harmónica, harmónio, concertina, e mais tarde o acordeão. As danças fazem parte da humanidade desde a sua existência. Já na Idade Média os jovens se reuniam nos largos das povoações e nas eiras para dançar. Na época em questão, teve inicio algumas danças a dois, no entanto, no Ribatejo, tratava-se de músicas e danças muito rápidas, permanecendo por alguns séculos a maioria das danças por pares soltos, “sem contactos físicos”. A exemplo do que os nossos ranchos folclóricos e etnográficos transmitem actualmente sobre as épocas em questão. O rancho folclórico de Torres Novas, numa das suas recolhas de danças e cantares do concelho, recolheu o fadinho batido em Chancelaria. Esta música e dança, foi transmitida ao Rancho de Torres Novas pelo Senhor António dos Santos Mineiro, nos anos 50 do século passado, passando a fazer parte do seu reportório. A música e dança em questão, assim como a moda dos dois passos, foi implementada pelo povo oriundo da Borda d’água que veio reforçando a povoação da aldeia ao longo dos séculos.       

 

A partir do século XX, com o aumento da produção agrícola, assim como a construção das estradas novas “de Macadame”, os habitantes da aldeia passaram a fazer longas caminhadas em direcção às grandes casas agrícolas da região ribatejana em busca de trabalho. Normalmente em grupos. Quando algum homem se deslocava isoladamente não era bem aceite pela sociedade, além da maior dificuldade na obtenção de trabalho e de alojamento. “Estes Homens eram intitulados de malteses, ou maltesões”. 

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