SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 21:02

Detalhes da guerra do ultramar – A dor das Mães dos jovens combatentes

 

O nosso planeta permanece em guerra a partir da existência dos dois primeiros homens. O homem é dos poucos animais que matam o seu semelhante das mais diversas formas. Também é o único que agride a «fêmea», por vezes até á morte. No entanto, alguns poderosos que promovem as guerras, alegam tais barbaridades em nome de Deus, e da Paz. Não sei a que Paz, e a que Deus se referem, quer os Árabes, quer os presidentes dos EUA. Entre outros malfeitores.

 

Independentemente das guerras em curso, as que mais marcaram o mundo, e a humanidade, foram as 1ª e 2ª guerras mundiais. “Não esquecendo as bombas atómicas descarregadas em: Hiroshima, e Nagasaki, pelos Estados Unidos da América. Ainda hoje os povos daquelas regiões sofrem os efeitos de tais barbaridades”. Seguindo-se-lhe outras guerras também no século passado, como: Argélia, Vietname, e as “famigeradas” guerras das ex. Colónias Portuguesas. Nomeadamente: Angola, Moçambique, e Guiné. Foram estas, e a 1ª grande guerra que mais marcaram os Portugueses. Sobretudo os jovens das épocas em questão. No entanto, pouco se falava de quem mais sofreu… “As Mães dos então jovens combatentes”. Talvez porque sofriam em silêncio. Porém, essas Mães tinham a dor bem estampada nos seus rostos.

 

As Mães residentes na província, vestiam roupas de cores escuras, o lenço que habitualmente usavam na cabeça, era atado por baixo do queixo, em sinal de profunda tristeza. Recusavam frequentar festas, e outros convívios. Mesmo as que não tinham o hábito de frequentar a Igreja, no período em que seus filhos se encontravam na guerra, rezavam. Muitas destas Mães, sofreram a passagem de três e mais filhos pela guerra do Ultramar. 

 

A maioria das Mães Portuguesas, durante a década de 60 e princípio de 70, em jeito de grande lamentação, comentavam: deitei eu um filho ao mundo, pa mo levarem pa tão longe pá guerra. não á direito. Deus não devia admitir isto.

 

Viviam ansiosas por notícias dos filhos, esperavam os carteiros debruçadas nos parapeitos das janelas, ou nas ruas. Enquanto esperavam, tentavam descarregar a dor conversando com as vizinhas, e, porque a larga maioria eram analfabetas, logo que chegava o carteiro, dirigiam-se a passos largos em direcção às pessoas que habitualmente lhes liam os aerogramas. Ouviam a leitura com muita atenção. Ficando algumas horas com a dor um pouco mais aliviada.

 

Nós Soldados, por nosso lado, sobretudo os que se encontravam em zonas 100% de guerra, obviamente que ocultávamos muitos acontecimentos às nossas Mães. Preenchíamos os aerogramas com assuntos relacionados com os nativos, e com os nossos convívios. “Respondíamos de forma deturpada” a algumas perguntas que as nossas Mães faziam questão de nos colocar, nomeadamente: se a comida era boa? Se haviam lá terroristas? Se já tinha morrido algum camarada? Etc: quanto às nossas respostas eram sempre idênticas entre camaradas. Quanto á comida, respondíamos que comíamos bem, porque caçávamos muitos animais selvagens, daí a existência de muita carne, (enquanto passámos largos meses a comer apenas salsichas com arroz) quanto á pergunta sobre se morreram alguns camaradas: (respondíamos sempre que não. Enquanto na minha companhia morreram 10).

 

Mas as Mães têm o 6º sentido, sabiam que os filhos lhes ocultavam a verdade. Com o objectivo de lhes atenuar o sofrimento. Muitos camaradas ocupavam grande parte do tempos livres a escrever, quer, para familiares, quer para namoradas e madrinhas de guerra. Os aerogramas, aos quais chamávamos “bate estradas”, eram-nos enviados por um organismo de nome Movimento Nacional Feminino, também nos enviavam revistas usadas, sendo algumas Sul-Africanas. Essas, dado que não sabíamos ler Inglês, apenas serviam para fazermos recortes de figuras femininas, “seleccionávamos as mais bonitas” para colarmos junto ás camaratas, no refeitório e na cantina.

 

Na minha vida, enquanto militar, alem dos dez camaradas que tombaram, o que mais me chocou, foi o facto de encontrar muitos camaradas analfabetos. Sendo a grande maioria destes, do norte de Portugal. Estes Soldados, tinham que recorrer aos camaradas para lhes lerem e escreverem as cartas dos, e para os familiares e namoradas. daí ficar muito chocado com a realidade destes camaradas em pleno século XX.

 

Enquanto isto, e tantos outros acontecimentos, não relatadas, as nossas Mães sofriam pela nossa ausência. A dor agravava-se nas quadras festivas, sobretudo na quadra de Natal. Resta-me transmitir a minha homenagem às Mães de todo o mundo que sofreram, assim como a todas que continuam a sofrer pelos seus filhos envolvidos em teatros de guerra, e em missões de paz.  

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