SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 16:01

Detalhes da guerra do ultramar – Encontros e desencontros

 

Raros são os batalhões e/ou Companhias que cumpriram as suas comissões de serviço nas ex. colónias que não efectuam um encontro “convívio” anual. Revivendo assim os laços que uniram estes Soldados durante cerca de três anos de serviço militar, dois dos quais nas ex. colónias. Muitas destas companhias passaram as suas comissões em zonas 100% de guerra, logo em situações muito difíceis. Mesmo os soldados que não se encontraram nestas situações, sentiram o trauma pelo facto de se terem encontrado deslocados das suas famílias dois anos consecutivos.

 

Os jovens eram retirados “desmamados” do seio das suas famílias duma forma abrupta, gerando assim o trauma e o drama no seio destas famílias, e na Sociedade em geral, eram levados em barcos para terras de África ocupadas á cerca de 500 anos pelos nossos antepassados.

 

Até finais dos anos 60, os soldados não tinham a consciência de que guerra se tratava. Apenas antes do embarque nos era incutido que íamos defender as “nossas províncias Ultramarinas”, dos ataques terroristas. Sendo-nos pura e simplesmente ocultado a essência da guerra. Mas, porque os nossos camaradas Sargentos e Oficiais milicianos se encontravam na mesma situação difícil, e dado que estes estavam mais esclarecidos politicamente. Com o passar dos anos foram transmitindo o seu saber aos soldados, enquanto muitos destes, principalmente das cidades, conforme vinham regressando á metrópole iam integrando movimentos ante – guerra, dando assim o seu contributo para pôr fim aquele flagelo, na tentativa de evitar que os seus familiares e jovens em geral, passassem pelos mesmos martírios. Os frutos dessas lutas começaram a surgir em finais dos anos 60, quando das constantes insurreições verificadas nos barcos, por parte dos soldados prontos para partir para a guerra.

 

Muitas companhias, a exemplo da minha, porque ao longo das suas comissões tiveram más recordações, só a minha sofreu 10 baixas, 9 em combate, e um por afogamento, gerando assim, entre outros motivos, o trauma e o stress do após guerra. Motivo pelo qual só passados 25 anos, concretamente em 1996, os meus camaradas de companhia deram inicio aos encontros anuais. Apesar dos traumas, o nosso instinto de sobrevivência enquanto seres humanos, uniu-nos de tal forma que deu origem a uma grande família solidariamente unida. No meu caso concreto, apesar das diversas tentativas realizadas desde os anos 90 com o objectivo de encontrar os meus camaradas, o que foi possível apenas no principio do corrente ano. Motivo pelo que foi a primeira vez que fui a um encontro anual realizado no passado dia 30 de Agosto. O motivo do meu desencontro deve-se aos seguintes factos; 1º porque na altura da guerra residia em Lisboa, e posteriormente regressei a Torres Novas. 2º os meus camaradas são todos do Norte. Daí, estar 37 anos sem os ver. Muitos camaradas, tive sérias dificuldades em reconhece-los.

 

Fui o alvo das atenções, primeiro porque tive todos estes anos ausente dos convívios, segundo dado o meu estado de saúde. Para mim, reencontrar os meus camaradas de guerra passados todos estes anos, mais pareceu um sonho.

 

As guerras deixam marcas nas Sociedades que prevalecem durante muitas gerações.

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