SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 13:24

Detalhes da guerra do Ultramar – Um Soldado, uma criança

 

Foi em Agosto de 1969 que o navio “carregueiro” de nome Niassa partiu do cais da Rocha Conde Óbidos em Lisboa transportando dois Batalhões rumo a Moçambique, mais precisamente a Nacala, cidade situada no litoral Norte daquela ex. Colónia Portuguesa. O percurso durou 28 dias, dado que o Niassa era um carregueiro muito lento, e foi adaptado para transporte de Militares “carne para canhão” durante a guerra colonial. Ao atracar no porto de Nacala, encontrámos um dos mais importantes portos naturais do mundo, “segundo informação dos tripulantes do navio”. Ficámos deslumbrados ao vermos largas dezenas de crianças e jovens montados em pequenas pirocas “cascatas” uns a brincar, outros a pescar. Cenários que só tivemos oportunidade de ver em Portugal “então Metrópole” no cinema. Após o desembarque, recebemos a nossa companheira para dois anos, de nome G3, de seguida entramos no comboio “apertados como sardinhas em lata” movido a carvão no qual viajámos durante 24 horas até Cuamba, “então Nova Freixo” onde dormimos uma noite no chão. Ao romper da manhã acordámos ao som das viaturas que nos transportaram durante mais 24 horas até ao nosso destino, de nome Candulo. Em todo o percurso, apenas encontrámos duas povoações de estilo Ocidental, a Cidade de Nampula, e a então Vila de Nova Freixo, o resto foi, e é, África profunda, mato e Aldíamentos de Nativos. Quando as colunas paravam nos Aldiamentos, logo as crianças corriam para junto dos Soldados, sabendo que estes repartiam a ração de combate com eles. Alguns com a pele cor de caramelo, “Mulatinhos/as ”, certamente filhos de Soldados, dado que nessas povoações não viviam brancos. Ignorando esses Soldados que deixaram filhos lindos em terras Africanas.       

 

Quando chegámos ao Candulo, encontrámos um «hotel» casernas construídas com chapas de zinco junto a um pequeno ribeiro situado no sopé duma serra, apenas se via mato, a povoação de Nativos mais próxima, de nome Chamba, situa-se a cerca de 70 km. No dia seguinte, como não gostei do hotel, ofereci-me como voluntario “na qualidade de Condutor Auto” para integrar um pelotão da minha companhia que foi precisamente para Chamba render outro que terminou o tempo de comissão, por isso regressou á “metrópole”. No percurso detectámos uma mina anti-carro artesanal, composta por uma caixa de madeira cheia de “trotil”, e um detonador. Mas, dado que tinha saído uma ordem que proibia o levantamento das minas pelos Soldados, ficámos pensando qual a solução para ultrapassar o grave obstáculo. Posto isto, o Alferes que comandava a coluna só teve uma alternativa, tentar rebentar a mina com o lançamento de uma granada para cima da mesma. Mas este, tal como nós, tinha acabado de chegar da Metrópole, e esses explosivos como todos são perigosos, motivo porque lançou 4 granadas e nenhuma acertou na mina, pelo que teve que proceder ao seu levantamento.           

 

Quer o Candulo, quer Chamba, situam-se na Província do Niassa. Concretamente Chamba, localiza-se na fronteira da Tanzânia na margem do Rio Ruvuma. A cerca de 30.000 km de Lisboa.  

 

Ao chegar a Chamba, encontrámos um pequeno edifício que anteriormente á guerra servia de aquartelamento para a Guarda-fiscal. O que passou a ser ocupado pelo exército  no inicio da guerra. Ao oferecer-me voluntário para integrar aquele pelotão, não me livrei da zona de guerra, mas valeu a pena, gostei mais de chamba. Trata-se de um local mais alegre, com um grande Rio e uma População que me deixaram fortes recordações.

 

O Ruvuma é um Rio com um leito superior ao Rio Tejo, no qual tomávamos banho, assim como nos abastecíamos de água para cozinhar. Foi o Rio e a População local, que de certa forma me proporcionou  uma maneira de passar o tempo menos isolado e menos triste.

 

Todos nós Soldados, tínhamos uma ou mais crianças com os quais partilhávamos as refeições, era de facto maravilhoso ver o afecto daquelas crianças por nós, sentiam em nós os seus ídolos e os seus Heróis. Enquanto nós Soldados sentíamos um enorme carinho por eles, preenchiam a ausência dos nossos Irmãos mais novos. Ainda hoje, tenho bem gravado na mente o rosto daquelas crianças.    

 

Nós Europeus, depois de 500 anos de ocupação e exploração daquele Continente, não só temos o dever de dar o peixe áqueles povos, como também lhes dar as canas e ensiná-los a pescar.

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