SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 18:40

Portal da Amizade: Conduta Anti-social / Bullying (4)

 

Finalmente iremos reflectir especificamente sobre um comportamento anti-social conhecido como bullying. Esta expressão vem da palavra inglesa bully que não tendo tradução para português se pode interpretar como o valentão. Utiliza-se para descrever actos de violência física ou psicológica, exercidos entre pares, ou seja, entre iguais. São praticados por um indivíduo ou um grupo de indivíduos com o objectivo de intimidar ou agredir outro indivíduo ou grupo de indivíduos incapazes de se defenderem. Acontecem principalmente nas escolas ou fora delas, mas quase sempre, de forma em que a supervisão dos adultos seja mínima ou inexistente. Implica uma relação de poder (o mais forte que procura o protagonismo junto dos seus iguais e o mais fraco quase sempre incapaz de se defender).

 

O bullying divide-se em duas categorias que são o bullying directo e o bullying indirecto. O primeiro é a forma mais usada entre os agressores masculinos. O segundo é conhecido como agressão social, sendo a forma mais frequentemente utilizada pelo sexo feminino e por crianças mais pequenas. Diferencia-se do primeiro por não ser tão frequente a agressão física.

 

Existe bullying quando acontecem, de forma repetida e intencional, agressões físicas, verbais e/ou psicológicas. Caracteriza-se sempre por uma relação de poder em que o valentão, o agressor, agride psicológica, verbal ou fisicamente alguém mais fraco, a vítima, com ou sem testemunhas. Estas, caso existam, podem ser defenders, ou seja, defensores, e são contra o bullying defendendo as vítimas; os bystanders, uma espécie de assistentes, os que presenciam a situação e reforçam a acção do agressor. São coniventes com a agressão. Temos ainda os outsiders ou seja, as testemunhas que não se manifestam, nem de acordo com o agressor nem em defesa da vítima. Estes são os cinco tipos de actores que existem num acto de bullying.

 

Normalmente a vitima tem determinadas características que a diferenciam da maioria dos alunos: pode usar óculos, ser a mais gorda ou a mais magra, a mais alta ou a mais baixa, gaguejar, ser o melhor aluno, o mais estudioso e outras.

 

Os autores destas agressões (agressores e apoiantes), combinam entre si como vão “chatear” a vítima nesse dia e qual a vitima, pois nem sempre é a mesma. Roubar ou danificar os seus pertences, espalhar rumores ou fazer comentários negativos sobre a sua pessoa ou a sua família (aparência pessoal, orientação sexual, religião, raça, nível social, nacionalidade…), obrigá-la a fazer o que não quer ameaçando-a, levá-la ao isolamento social incentivando os outros a não a acompanhar nem a deixar entrar nos jogos ou no grupo, fazer chantagem… Estas atitudes de provocação levam frequentemente ao confronto físico. Pratica-se ainda o cyberbullying criando páginas falsas sobre a vítima em vários sites na internet.

 

Como podemos perceber se uma criança ou jovem está a ser vítima de bullying? Habitualmente, ao fim de algum tempo a sofrer estas agressões, a criança ou jovem apresenta sinais como, por exemplo, fobia aparentemente não explicável à escola. Recusa-se terminantemente a frequentá-la, tendo elevados índices de absentismo o que, por sua vez, leva ao baixo rendimento escolar. Demonstra perda de auto-estima, ansiedade, tristeza, irritação, medo de expressar as suas emoções e problemas de relacionamento interpessoal, entrando muitas vezes em depressão. Pode também assumir comportamentos problemáticos como sinal da sua revolta. Não cumpre as regras, desrespeita os adultos pois estes não estão a libertá-la daquele sofrimento. Não podemos desvalorizar estes sintomas pois, uma grande percentagem de suicídios na adolescência, têm estes sentimentos na sua origem. Pode ainda levar ao início de consumos de álcool e drogas.

 

Fala-se muito deste tipo de agressões como sendo exclusivo das escolas mas também existe no local de trabalho, na vizinhança, na política, no ambiente militar. Dão-se sempre com base na tal relação de poder.

Recentemente foi realizado um estudo em Portugal por uma equipa de especialistas liderada por Margarida Matos no âmbito da Organização Mundial de Saúde tendo-se verificado que:

 

1. Os rapazes envolvem-se mais em actos de violência na escola quer como agressores quer como vítimas ou com um duplo envolvimento;

2. Este envolvimento parece ser maior por volta dos 13 anos embora os mais novos participem mais como vítimas;

3. Os envolvidos apresentam um perfil de afastamento em relação à casa, à família e à escola referindo ver televisão quatro ou mais horas por dia;

4. As vítimas e os que têm duplo envolvimento afirmam não se sentirem felizes nem seguros na escola. Referem ainda problemas de relações sociais, não possuirem amigos e terem dificuldade em arranjá-los;

5. Os que apresentam maiores queixas físicas ou psicológicas são quase sempre vítimas;

6. Os que referem ter problemas de comunicação com os pais estão envolvidos maioritariamente como agressores e com duplo envolvimento;

7. Aqueles que não têm pai ou não o vêem com frequência, são mais frequentemente vítimas.

 

É importante ficarmos com a ideia de que o bullying não é uma simples brincadeira de mau gosto mas sim um fenómeno que pode ter consequências muito graves no futuro da nossa sociedade. Segundo noticiado pela Agência Lusa no passado dia 23 de Junho um especialista holandês, Werner Katwijk, que desde 1994 estuda este fenómeno, concluiu que cerca de 40.000 crianças e jovens portuguesas, sofrem actualmente as consequências desta “guerra silenciosa”. Estas declarações foram feitas no Seminário “Bullying – Prevenção da violência na escola, no trabalho e na sociedade” que decorreu nesse mesmo dia em Lisboa.

 

Após a descrição das conclusões destes estudos parece-nos que, mais uma vez, a família representa um factor muito importante no desenvolvimento harmonioso das nossas crianças e jovens que serão os Homens de amanhã e construirão a Sociedade do Futuro.

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