SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 20:37

Acordem-me

Dormi só 5 horas. Cheia de sono, com o cabelo enrodilhado por esta chuva que teima em não ir embora (só me consola o que diz a companheira de quarto, que o meu estilo é o penteado despenteado, que está na moda…), com frio porque mais uma vez me enganei na quantidade de roupa a vestir, ainda com o pequeno-almoço por tomar, chego ao hospital ofegante do passo apressado. Visto a bata, que devia ter trocado mas esqueci-me da lavada e subo as escadas até ao piso sempre demasiado alto, enquanto penso na inutilidade de ter elevadores se não se conseguem utilizar em tempo útil. E enquanto ensaio o sorriso que tenho de pôr antes de passar aquela porta, vejo se há mensagens no telemóvel e penso que hoje tenho mesmo de sair a horas, para ver se consigo estudar o que preciso durante a tarde.

Olha para a lista dos doentes. Três entradas. Ok, vai-me tocar um deles a mim. Lavo as mãos e lá vou eu procurar a senhora, chamemos-lhe Maria.

Vejo-a de alto a baixo, oiço-a por dentro, palpo-lhe o que devo, anoto tudo porque nunca confio na minha memória, muito menos a esta hora da manhã. A seguir vou procurar um esfigmomanómetro que funcione bem e tento trazê-lo através da gincana de macas pelo corredor…

Enquanto falo com a senhora Maria tento concentrar-me nela. Esquecer-me de tudo o resto. Do que tenho para fazer. Do telefonema que me esqueci de retribuir. Da inquietação que me ferve dentro. Da dor de estômago. Do sono. Do cheiro menos agradável que paira por todo o serviço. Da fealdade das doenças. Dos gemidos e gritos que se vão ouvindo. Agora estou para a senhora Maria. Mas é uma vida tão triste, tão complicada, tão vazia, tão solitária, que me apercebo de ser invadida por um sono que não me é totalmente estranho. Faz-me lembrar um outro, há já muitos anos, em que teimavam em cair aqueles que deviam acompanhar um Homem que sofria horrivelmente. O sono de não querer chorar. De não querer sofrer. De fugir da “com-passione”, da compaixão, e deixar o outro viver sozinho a sua paixão. Porquê?

Oh, porque dói. Porque entristece. Porque nos recorda a nossa própria miséria, o nosso próprio destino enquanto seres humanos, que passam necessariamente pela dor e pela morte. Bolas! Se já a nossa vida dói, porque é que hei-de sentir com os outros? É nessa hora que chega o sono, uma espécie de narcótico para quem não quer estar totalmente consciente da dimensão da dor alheia. Porque isso significaria torná-la nossa.

Só nos esquecemos de um pormenor. É que permanecendo adormecidos, sim não sofremos, mas também não vivemos. Hibernamos, como a Turty lá de casa. E assim não somos homens, não somos nada mais que a Turty.

E no meio destas filosofias, vem-me acordar do meu sono cobarde a senhora Maria, que me aperta a mão firmemente. “Ó Menina Doutora, não me largue! Não me largue, não? As suas mãos são tão boas! Dão-me vida quando me tocam.”

Dão-me vida quando me tocam.” “Dão-me vida quando me tocam…”, vou pensando enquanto me encaminho para a sala do médicos onde registo “vigil, consciente, desorientada temporal e espacialmente, discurso por vezes incoerente e inadequado”, que corresponde à avaliação realizada. Mas são estes doentes, que no meio da sua confusão e doença, nos vão dando estas bofetadas que nos acordam do sono em que queremos mergulhar, por estarmos cansados de ser homens.

Amigo, não adormeças! E não guardes a vida das tuas mãos para ti.

Acordem-me se me virem dormitar, sim?

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