SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 12:21

Eu sou feliz e vocês!?

O valor da sorte…

 

Na cidade de Lisboa onde vivo actualmente, a casa fica num prédio de 10 andares, com 4 apartamentos em cada um; conclusão, vive mais gente neste prédio em Lisboa, do que em Torres Novas no bairro onde morei e que continua a ser a minha casa aos fins de semana, férias e sempre que posso. Um dos meus vizinhos é peculiar: chamemos-lhe “Tó”. O pai, que ainda conheci, e faleceu há uns anos gostava do seu copito de vinho a mais. Ele, além do vinho, é também toxicodependente… Estereótipo do toxicodependente é magro e de aspecto envelhecido, anda sempre “aos caídos” e a pedir a moedinha. Tem problemas de relacionamento com alguns vizinhos mais antigos, parece-me que terá a ver com guerras familiares antigas, o que por vezes gera algum barulho entre eles. No entanto, sempre que me encontra, é educado, pergunta pela família, se está tudo bem, oferece-se para guardar o carro, ou ajudar a acartar qualquer coisa que eu tenha que transportar, é no geral bastante prestável e atencioso. Não tenho por hábito dar moedinhas a ninguém, incluindo ao vizinho, e ele sabe.

 

Faço aqui um pequeno à parte para explicar esta tendência. Depois de se estar há alguns anos em Lisboa aprendemos a ignorar a maioria dos (muitos) pedintes que encontramos nas nossas deslocações normais do dia-a-dia. Sei que dito assim parece frio, mas a verdade é que a determinada altura aprendemos a desconfiar de tudo e todos porque o cego do semáforo, depois de reunida a quantia desejada, ganha miraculosamente a visão e vai para casa como se nada fosse; o coxo só coxeia da 9 às 17; outros há cujas famílias se aproveitam da sua deficiência, ou no caso das crianças da sua tenra idade, para retirar daí rendimento… Enfim! A “chico-espertísse” e a crueldade são incríveis e acabam por nos fazer deixar de acreditar! É claro que há pessoas que realmente necessitam… Mas como não sabemos quais são, paga o justo pelo pecador. Se bem que descobri que, bem vista a coisa, nem é assim tão difícil perceber se estão ou não com fome, se têm ou não as necessidades que afirmam ter. Basta oferecer-me para lhes comprar o produto final – o almoço, o medicamento, alguma coisa no supermercado mais perto. Por incrível que pareça, já tentei várias vezes, e a maior parte recusa. Limitam-se a virar as costas e continuar com o peditório, sem mais nenhuma justificação, ou então ainda tenho que ouvir dois ou três desaforos. O que lhes interessa é única e exclusivamente o dinheiro, suponho que, em regra, para fins menos nobres. Aos que aceitam de bom grado a ajuda pago o que me pedem e tento trocar alguns dedos de conversa, o que nem sempre é fácil porque ou não falam a língua para além das palavras essenciais, ou são simplesmente pessoas muito fechadas. Mas este é um tema que daria um artigo por inteiro. Explicada a nega à moedinha, voltemos ao “Tó”. Expliquei-lhe logo de início que não lhe dou moedinhas. O dinheiro é fruto do trabalho e que ele é novo e pode tentar procurar um emprego. Já tentei convence-lo disso vezes sem conta, mas ele acaba a desconversar. Também já lhe falei de procurar ajuda para o problema com as drogas e há 8 anos que a resposta é a mesma: ele tinha um problema com droga, mas já não tem… Posto isto limito-me a dar-lhe o que pede – ora são batatas, azeite, leite, pão, enfim… comida está sempre disponível. Apresentada a “personagem” vamos ao que me trouxe até aqui. O “Tó” tem bom fundo, é boa pessoa. Moldado pela vida o produto final faz dele o fantasma daquilo que poderia ser. Na verdade qualquer um de nós podia ser o “Tó”. Pergunto-me como seria a minha vida se tivesse nascido numa família, casa, cidade, ambiente como as dele. E o que seria dele se tivesse nascido numa família como a minha… Teria eu a coragem de ser simpática com alguém nitidamente com muito mais sorte que eu? Teria a coragem de com um sorriso pedir um copo de leite? De uma coisa eu tenho a certeza… se fosse eu a pedir, ele dava.

 

É certo que ao longo da nossa vida fazemos muitas escolhas, nem tudo é destino, mas há coisas que não escolhemos e que nos moldam desde muito cedo. Na minha vida tudo é perfeito? Não! Queremos sempre mais, há sempre qualquer coisa que corre menos bem e da qual nos podemos queixar, mas todos os dias penso no valor inestimável de todas as coisas que tenho – uma família, um tecto, comida, possibilidade de comprar o que preciso, um curso, um emprego, amigos, saúde, vontade de ir sempre mais longe e por tudo isto agradeço a todos os que me rodeiam e ao Universo! Parece-me que a melhor forma de agradecer é ser feliz! Eu sou feliz! E o caro leitor é feliz? 

 

Catarina Cerqueira

artigoscc@gmail.com

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados