SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 16:09

A “Encomenda” do terror ou o terror da “Encomenda”

Há uns anos, o mundo andou aterrorizado por causa dumas encomendas com antrax. A coisa entretanto passou mas este caso das encomendas fez história e deixou marcas, como é agora o caso recente dum tal “relatório” do terror cheio de requinte de malvadez.

Certamente para distrair o país do terrível, demagógico e inalcançável Orçamento do Estado para este ano da desgraça de 2013, o governo “encomendou” um Relatório ao FMI, qual documento condenatório à morte de um país secular.

Aliás só pode ter sido um “encomenda” visto que o ponta de lança de raiz, MM, já há tempo, do alto do seu púlpito semanal da TVI, onde ganha bem e depressa, tinha anunciado tudo o que o documento agora define em inglês “técnico” ou erudito, que é tudo a mesma coisa, sem direito a tradução, para que o português não perceba bem o real sentido da “encomenda”. É esta a realidade dos factos.

Mas como os comentadores são muitos e todos bem pagos, ainda na última “Quadratura do Circulo”, os três comentadores residentes foram unânimes em classificar de muito mau gosto e de muito perigoso tal documento, chegando Pacheco Pereira a “brincar”um pouco com a situação quando disse que o Rei Midas transformava em ouro tudo em que tocava ao contrário do governo que transforma em lama – para não dizer outra coisa – tudo em que toca. Mas foi uma boa expressão até no seguimento do que foi uma tal Conferência, também encomendada, onde os jornalistas não puderam colher imagens, nem som e nem sequer transcrever ou citar expressões da dita conferência, sem autorização dos oradores, no melhor exemplo dum novo tipo de democracia, à trela.

Sobre a tal conferência, permito-me transcrever de Baptista Bastos, Jornal de Negócios de 18.01.13, o seguinte parágrafo bastante elucidativo: “Há qualquer coisa de grotesco e de safadeza de espírito nas declarações de Pedro Passos Coelho ao encerrar uma estranha conferência sobre a reforma do Estado. O optimismo, claramente demencial, com que o primeiro-ministro vê e comenta a situação do País contrasta com o movimento geral de protesto popular, com as críticas veementes de políticos, ex-Presidentes da República, ex-ministros, intelectuais, antigos resistentes e, de um modo geral, de quem pensa Portugal. A lista de protestatários aumenta, consoante as decisões atrabiliárias do Executivo. Há dias, Freitas do Amaral, numa entrevista a Judite Sousa, na TVI, desmoronou o edifício no qual se apoia Passos Coelho, chamando a atenção do Presidente da República para os perigos iminentes que pairam sobre a pátria, acaso a situação se deteriore. O dr. Cavaco, como se sabe, nada deve à coragem política e, com alegre desenvoltura, assobiou para o lado e promulgou a lei do esquartejamento territorial, que põe o País numa tensão de guerra.”

Ainda sobre o tal relatório, se o mesmo fosse alguma vez posto em prática – quero continuar a pensar que o mesmo não passa de uma manobra de diversão para nos distrairmos da realidade, nua e crua, do “colossal” Orçamento que eles aprovaram – o mesmo chega ao extremo de propor que o Estado acabe com o pagamento do subsídio de funeral, um subsídio único, cuja extinção só se pode equacionar pelo previsível grande aumento da mortalidade nos tempos mais próximos já que o índice de mortalidade, incluindo a infantil que era uma das jóias da coroa do Serviço Nacional de Saúde, começa já a revelar números preocupantes e com este orçamento tudo se agravará e a esperança de vida cairá drasticamente. Portanto, cortar o subsídio de funeral será mais uma “boa” maneira de poupar na despesa do Estado. Pasme-se. Até na morte que parece estarem a promover com tantos cortes, eles querem poupar e simultaneamente roubar a dignidade que o acto fúnebre ainda merece a uma sociedade dita normal. Querem portanto que os tempos antigos regressem, quanto mais depressa melhor, para eles, e quando morrer alguém por aí, os familiares, os vizinhos ou os amigos irão fazer uma subscrição, como se fazia antigamente, para a compra da urna e assim se evitar que o corpo vá para a terra embrulhado num lençol. São esses tempos que eles querem de volta e, se assim for, em contrapartida, vamos ver mais jazigos novos e sumptuosos nos cemitérios para que as diferenças sobressaiam ainda mais e, neste caso, também na morte.

Mas no meio de toda esta desgraça, mesmo assim o governo acertou num dos seus objectivos e é bom que não se omita esse êxito já que em 2012 todo o resto falhou – aumento do défice e da divida, aumento do desemprego derivado ao colapso da economia – mas houve mesmo um pormenor em este governo acertou. Foi exactamente no crescimento da emigração que em relação a 2011 teve um aumento de 85% o que é deveras significativo e emblemático na situação em que se vive neste país à beira mar encravado.

Já que o tal relatório fala em acabar com tudo e mais alguma coisa, gostava que alguém medisse o que é que o país poupou em gastos quando acabou com os Governos Civis. Foi uma imagem e só isso. É também o caso deste ser um governo com menos ministros. Houve alguma poupança? E o caso das juntas de freguesia cuja redução já foi promulgada por Belém, vai alguma vez poupar alguma coisa de jeito a este país endividado? Nunca. As poupanças são no farelo, mas o despesismo é nas farinhas, e ninguém diz nada.

A confusão é cada vez maior, as trapalhadas acontecem e renovam-se todos os dias, por isso e por hoje não quero continuar a malhar em ferro frio e assim termino este artigo com uma citação de Albert Einstein, que vale a pena interiorizar: “O mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer.” E nós estamos a deixar que muita coisa de mal aconteça. Até quando?

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