SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 16:03

“O Governo atingiu o seu ponto Gorbatchov”

No momento extremamente complicado que o País vive, em que, desde as classes mais desfavorecidas até à classe média alta estão sufocadas por uma “soltura” fiscal nunca antes vista, mesmo assim, em jeito de graça, com a devida vénia transcrevo do Blogue Cinco Dias – artigo de António Paço, de 12 de Outubro, com o título em epígrafe, que inicia com uma introdução culinária acerca da elaboração de doces e dos vários pontos, consoante o grau de redução do xarope de açúcar: ponto de pasta, ponto de pérola, ponto de rebuçado, etc., passagens do mesmo: “Na política, que frequentemente é uma grande xaropada, também podemos definir vários pontos, consoante o grau de redução a que tenha sido levada. O Governo PSD/CDS deverá, por esta altura, ter atingido o seu “ponto Gorbatchov”. Explico-me: no auge da sua perestroika, que levaria à destruição da União Soviética e à total abertura das nações que a constituíam ao capitalismo privado, Gorbatchov, ao mesmo tempo que gozava de grande “prestígio” no estrangeiro – leia-se entre os grandes banqueiros e capitalistas da Europa, dos EUA ou do Japão -, atingia internamente uma “popularidade” de 6%.”

Continuando a transcrição, “O mesmo se passa hoje com Passos Coelho, Portas e o inefável ministro Gaspar entre os banqueiros, vendedores de submarinos e plutocratas em geral da União Europeia e seus agentes políticos, estão imensamente “prestigiados”: ele é só palmadinhas nas costas, sorrisos de satisfação, elogios públicos…Por cá, é o que se vê: não se atrevem a sair à rua, e quando vão a algum sítio (em local fechado), saem pela porta do cavalo. Atingiram o “ponto Gorbatchov.”

Sem comentar a transcrição acima cuja interpretação deixo à melhor atenção dos leitores, não posso deixar de dizer que a crise que estamos a viver foi culpa de muita asneira que se foi fazendo por cá ao longo de muitos anos, mas desta vez a mesma é mais complicada e diferente de muitas outras porque também foi importada e o que se está a passar nos países do sul da Europa e na Irlanda também já começa a atacar o centro da Europa, é muito perigoso porque faltam políticos com estatura.

De qualquer forma, e apesar de não estarmos imunes ao que se passa ao nosso lado, o certo é que por cá os governos não têm conseguido, não têm sabido ou não têm querido afinar uma estratégia leal, franca e aberta, com objectivos credíveis, para combate à crise que afecta as contas do país e acima de tudo a carteira das pessoas.

Mas estes senhores que estão no poder há perto de ano e meio, que em coligação têm uma maioria absoluta, que tudo prometeram e tudo falharam, continuam a falhar e a denotar uma falta de rumo desconcertante. É certo que eles já não se entendem. Isso é público. Mas de qualquer forma não se percebe como é que nos continuam a bombardear com medidas de austeridade avulsas e, passados alguns dias, certamente devido à movimentação das pessoas, tudo tem voltado à estaca zero mas, e logo de seguida anunciam outras medidas ainda mais “austeritárias”.

Começaram com a escandalosa TSU em que até os beneficiários daquele escândalo, os patrões, foram contra as medidas anunciadas porque paralisavam ainda mais a economia.

Depois veio a confusão do IMI, e, pasme-se, estavam preparados para lançar aumentos até 4 ou 5.000% sobre as colectas actuais. Aqui também recuaram já que era impossível que as pessoas pagassem o que lhes queriam extorquir. Mas se este mal fosse dividido por todos, quer dizer se todos pagassem, quer dizer se houvesse equidade, e abolissem as grandes isenções que existem, as dificuldades seriam menos gravosas. Mas nem nisso pensaram.

Agora temos na praça pública a proposta do OE que inclui o bombardeamento do aumento dos escalões, das taxas, das sobretaxas do IRS. Mas como é que deixaram sair para a rua o que deveria ser um segredo até que o Orçamento fosse apresentado no dia 15 na Assembleia da República? Foi para auscultarem, aleatoriamente, a reacção das pessoas? Então já sabem!

Talvez por isso o Expresso de 13 de Outubro já tinha a manchete, em letras grandes: “Escalões do IRS podem mudar até segunda feira” e pessoas como Marcelo Rebelo de Sousa, Capucho, Marques Mendes, Bagão Félix, Sampaio e até Cavaco Silva já se manifestaram preocupadas com esta proposta e com os resultado se a mesma viesse a ser posta em prática.

Também transcrevendo dum artigo de Miguel Marujo publicado no DN de 13.10, com o titulo “Cavaco contra cumprir défice “ a todo o custo” e logo a seguir “Presidente diz que “ nas presentes circunstâncias, não é correcto exigir” a Portugal “que cumpra a todo o custo um objectivo de défice público fixado em termos nominais”. E pede novas metas à “troika”, o que dá para entender a dificuldade que até Cavaco tem em aceitar estas medidas.

Por sua vez, Carlos Moreno, ex-juiz do Tribunal de Contas, segundo a RTP Notícias de 13.10, “diz que o Orçamento é inconstitucional” e mais à frente “alerta que este é um documento que está a ser feito na praça pública.”

Ainda segundo a RTP Notícias do mesmo dia, “A constitucionalidade do Orçamento do Estado, pelo menos o que se conhece está a ser posta em causa por constitucionalistas. Jorge Miranda, Bacelar Gouveia e o antigo Juiz do Tribunal de Contas Carlos Moreno entendem que Cavaco Silva deve enviar o novo Orçamento de Estado para o Tribunal Constitucional, Carlos Moreno diz mesmo que está em curso “um terrorismo de impostos” sobre a classe média. Jorge Miranda garante que a redução dos escalões do IRS viola a Constituição da República”.

Entretanto, segundo o Público de 10.10, “Portugal teve o segundo maior aumento da carga fiscal nos países desenvolvidos”.

Face às transcrições acima, é pena que quem nos governa não tenha aprendido a lição deste ano em que os impostos aumentaram loucamente, as receitas caíram tragicamente, o desemprego aumentou, o consumo caiu e a economia regrediu, porque não há poder de compra.

Portanto, se estas medidas anunciadas à socapa fossem para a frente, é certo e sabido que as receitas fiscais voltariam a cair, o desemprego aumentaria ainda mais, a economia continuaria a cair e o país a definhar. E se é isso que querem, que o digam abertamente para que o povo também possa dizer de sua justiça que “O Governo atingiu o seu ponto Gorbatchov”.

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