SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 21:03

Vamos parar para pensar

No meio da trapalhada onde nos meteram, e de que estamos a sofrer os reflexos com língua de palmo como se fossemos os causadores de tudo isto, e uns tantos a gozar à grande e à francesa à nossa custa, acho que temos que parar um pouco para pensar acerca das razões do estado a que isto chegou e procurarem-se soluções que tardam.

Na semana que passou tivemos oportunidade de ver, ouvir e ler declarações que o Juiz Jubilado Carlos Moreno prestou na Assembleia da República acerca da vergonhosa situação das parcerias público-privadas onde uma série de senhores meteram o país.

Aliás, o referido Juiz já em 12 de Outubro de 2010, em entrevista à TSF tinha dito, e passo a transcrever: “Entre os exemplos mais flagrantes de parcerias público-privadas, que se traduziram em péssimos negócios para o Estado, o Juiz Carlos Moreno destacou o caso da Lusoponte, que tem a concessão das duas pontes sobre o Tejo e que derrapou 400 milhões nos custos para o Estado.” Mas eu atrevo-me ainda a acrescentar que para além do que está dito, também a Lusoponte, por causa daquele negócio, ficou com o direito ao monopólio de todas as pontes que se vierem a construir até Vila Franca de Xira. Quer dizer que, para além de terem ficado com o papo cheio naquele negócio, ainda ficaram com mais um saco cheio de oportunidades garantidas para outros grandes negócios. E o Juiz não terá falado das monstruosas derrapagens orçamentais em obras do regime como foram o Centro Cultural de Belém, a Casa da Música e em muitas outras outra obras onde os “chamados trabalhos a mais” proporcionaram tudo e mais alguma coisa a favor dos mesmos, à custa de nós todos, habituais pagadores de facturas dos outros.

Nesta recente audição perante a Comissão de Inquérito às PPP, ainda foi mais preciso, quando, segundo a Lusa de 25 de Maio de 2012, e passo a transcrever: “No final da sua exposição inicial, o Juiz Jubilado do TC defendeu que, no actual estado do país, quando são pedidos “esforços titânicos” aos portugueses, “tudo deve ser feito para reduzir as estimativas internas de rentabilidade na ordem dos 11 a 14 por cento”. “Considero chocante que esta situação se mantenha no futuro”, concluiu”.

Sobre o mesmo assunto e segundo notícia da RTP da mesma data, “O Juiz Carlos Moreno considera chocantes as taxas de rendibilidade dos contratos das Parcerias Público-Privadas. O Juiz Jubilado do Tribunal de Contas …considera os lucros dos privados excessivos em tempos de austeridade. Para o Juiz Carlos Moreno “é chocante, é desumano para quem sofre na carne e no sangue o flagelo de viverem com 300 ou 400 euros ou até terem perdido o subsídio de desemprego”.

Para além das declarações de agora, o Juiz já tinha publicado em 2010 o livro “Como o Estado gasta o nosso dinheiro” onde acusa o Estado de despesismo com as parcerias público-privadas. Mas nem mesmo assim os responsáveis arrepiaram caminho e por isso chegámos a esta situação.

Face ao que se relata, alguma coisa tem que ser feita. Não podem continuar a cortar aos que menos têm e mais precisam para que os que mais têm continuem a ter todos os dias cada vez mais, aumentando o enorme fosso entre ricos e pobres uma vez que a antiga classe média já deu a alma ao criador. E não são as leis recentemente criadas que vão alterar esta pouca vergonha das PPP como também das famigeradas rendas do sector energético.

Parando mesmo um pouco para pensar, começamos a vislumbrar no horizonte algumas movimentações que mais tarde ou mais cedo alterarão este estado de coisas. Já não só os indignados, já não são só os sindicalistas, já não são só os movimentos anónimos da Internet, mas já se encontram movimentos onde predominam intelectuais, antigos ministros das finanças de vários países da chamada Europa dos ricos, até um antigo Presidente da Comissão Europeia, a reclamar mudanças que visem acabar com tantos privilégios escandalosos que, se nada mudar, criarão a curto prazo, conflitos sociais graves. Ainda bem que já há pessoas com credibilidade e conhecimentos, com acesso fácil à comunicação social a mostrarem as suas preocupações para que isto mude mesmo.

A terminar ainda quero dizer que começo a estar farto de ouvir constantemente o empolamento que fazem das exportações, que de facto são um bem para o país, mas ao invés continuam a esquecer-se que as importações têm que ser reduzidas, custe o que custar. Não se pode admitir que as catedrais do consumo nos continuem a agredir e a provocar com produtos que nós sabemos e podemos produzir como sejam as batatas, as cenouras, as cebolas, as carnes, o leite, os peixes e tanta outra coisa que o país deveria produzir em quantidade e em qualidade. Dum tiro, se eles quisessem, matavam-se dois coelhos: – Equilibrava-se a balança de pagamentos e reduzia-se o desemprego. Será caso para perguntar: – Estão à espera de quê?

Só mais uma pergunta: – O que é que terá sido feito dos 6.000 Milhões do Fundo de Pensões dos Bancários bem como dos milhares de milhões da privatização da EDP e da REN se o défice continua a crescer? Alguém sabe explicar? Nós temos direito a saber!

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