SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 03:04

“Morte lenta”

Começo este artigo com uma declaração de interesses, no sentido de ficar bem claro, que assumo que plagiei, como titulo deste artigo, as duas últimas palavras do artigo que Manuel António Pina escreveu magistralmente no JN de 6 de Abril, na sua coluna “Por Outras Palavras”, e que intitulou de “O FMI está “triste”.

Mas também assumo que partilho de muitas das ideias daquele mestre da literatura e da poesia, que tão bem sabe expor as suas ideias em todos os seus artigos de opinião que o JN dá normalmente à estampa todos os dias úteis da semana.

E porque assumo tudo isto, não posso deixar de estar mais de acordo com as suas palavras naquele artigo quando ele refere que o “FMI está triste” porque um grego se suicidou em frente ao Parlamento helénico, mas também diz que “quando algum reformado ou algum desempregado português fizer o que fez o reformado grego para não ter que, como ele, “procurar que comer no lixo”, o FMI ficará “triste”. Porque, segundo ele, para o FMI, é melhor a morte lenta.”

A verdade é esta que estamos mesmo a caminho da “Morte Lenta”, com o desemprego a aumentar todos os dias, porque todos os dias encerram empresas carenciadas de crédito e sufocadas pelos impostos, pelos custos dos combustíveis e de todas as energias e não se vê ninguém a fazer o mínimo que seja, para que se ultrapassem os problemas criados por muitos e aumentados por outros tantos e se criem alternativas que possam inverter a situação calamitosa a que estamos obrigados a viver e nem sequer nos transmitem uma réstia de esperança, mesmo que longínqua.

É um novo tipo de escravatura que está de volta, o fenómeno humano que existe desde a antiguidade e que consiste na prática de um ser humano ter direitos de propriedade sobre outros seres humanos e que se julgou erradicado desde que o Padre António Vieira e Frei Bartolomeu de las Casas, cada um a seu modo, a combateram, e está agora de volta com novas roupagens, como se está a sentir. As técnicas de hoje são diferentes, mas o fim é o mesmo. E tudo isto acontece depois de terem implementado o estado social na Europa, no após guerra, e criado expectativas legítimas, dignas de registo, que levaram anos a implantar-se e a desenvolver-se, mas que agora se vão esboroando todos os dias como se as nossas vidas fossem um simples baralho de cartas.

E não me venham dizer que é falta de dinheiro. O dinheiro existe, ninguém o queimou, só que todos os dias muda de mãos a caminho dos especuladores, a caminho dos beneficiários das famosas rendas e das não menos famosas parcerias público privadas e outros que tais.

E depois, para se completar o ramalhete, nem sequer temos um árbitro, que, pelo menos, saiba apitar quando há foras de jogo, e há tantos, e até a justiça funciona como funciona.

Não sei como é que isto se pode resolver. Mas sei que não será assim, com mentiras diárias e “lapsos” e confusões que bastam.

Temos que ter esperança, até porque vamos ter dias emblemáticos muito em breve, que de algum modo podem ajudar a combater o clima de terror que está instalado e a perspectivar a esperança que tanta falta faz.

Diz o povo, que quem cala, consente. E o povo, o povo que paga tudo, a quem tiram tudo, não pode continuar a consentir tudo, até porque a esperança será a última a morrer.

Isto tem que levar uma volta, até porque a história, não é estática e regista, ao longo dos séculos, muitas reviravoltas e nem sempre todas no mesmo sentido. E o sentido para onde nos têm levado está esgotado.

Que haja esperança. Mas para tanto, que se combata esta “morte lenta”.

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