SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 16:06

As Gorduras

 

O tão anunciado, quanto adiado, corte das gorduras dos “aparelhos do estado”, finalmente proclamado há dias, afinal não passou de mais um ensaio, qual tiro de pólvora seca.

O Governo prometeu extinguir 162 organismos, criar outros 25 novos, feitas as contas, irão ser extintos 137, dizendo que assim poupará 100 milhões de euros. É caso para perguntar se essa poupança já se sentirá nas contas deste ano, se nas do ano que vem ou se tudo isso diluído no tempo não passará de mais uma panaceia, igual a tantas outras.

 

Já o Governo anterior tinha eliminado 1.812 cargos de direcção e 227 organismos, números sobejamente superiores aos que agora são anunciados. Mas esses cortes deram no que deram.

Já que falamos em cortes de gorduras, lembramo-nos das palavras do Ministro Álvaro, ultimamente desaparecido dos espectáculos mediáticos, que dizia ter ficado admirado com os luxos que reinavam no seu ministério, especialmente no que respeita ao gordo e grande parque de viaturas de luxo. Então pergunta-se quantas dessas viaturas já foram postas à venda, e quanto é que se apurou para abater na divida?

 

E nos outros Ministérios e outros organismos do Estado, quantas viaturas é que já foram vendidas? Aí é que deviam começar a cortar na gordura e a abater na malvada dívida.

 

Mas também podiam cortar outras gorduras e pôr à venda uns tantos aviões caríssimos, ainda encaixotados, os tais F-16, e eram seguramente muitos milhões para abater na dívida.

 

Pensando ainda melhor, porque é que os submarinos, outra fortuna, não são devolvidos aos nossos amigos alemães que tanto nos querem ajudar [a empobrecer]? Seriam mais de mil milhões agora que já têm a rodagem feita e que todos os dias nos custam fortunas, mesmo parados. Mas se se vier a comprovar que os Submarinos fazem falta para as operações da NATO, uma vez que temos operacionais competentes, porque é que a NATO não nos empresta meia dúzia desses brinquedos, pagando, claro, as despesas de manutenção e de operação?

 

E as famosas parcerias público-privadas começadas no Cavaquismo e sempre continuadas, quando é que são renegociadas? Essas, é que nos vão levar à ruína. Mas porque tocam a gente importante, que manda nos políticos, quais paus mandados, nem se fala delas. Porque será?

 

Sinal positivo foi dado pela Assembleia da República. Parece que vão cortar 27% do seu orçamento. Mas podiam cortar muito mais, até nos automóveis de luxo, acabando também com as reformas dos políticos por meia dúzia de anos de trabalho e a continuar pela redução imediata do número de deputados. Isso é que era serviço. E não se faz porquê?

 

Do lado de Belém, é que não se ouve, nem se sente, qualquer intenção de dar um bom exemplo ao país em matéria de poupança, o que é pena, mas não é para admirar. Aí também há muitas gorduras para cortar. Aliás, diz-se para aí que a nossa PR tem um orçamento muito superior ao da Casa Real Espanhola. Custa a acreditar. Não sei se será verdade. O facto é que não se sente nada, moita, carrasco. Os cortes são bons para os outros, para os que podem menos e já estão habituados a viver com pouco, neste caso a viver na miséria.

 

Ainda a tempo, sobre Belém e citando a Lusa: “O Presidente da República, Cavaco Silva, afirmou, quando questionado sobre a situação da Madeira, que “ninguém está imune” aos sacrifícios que são pedidos a Portugal para cumprir os compromissos assumidos internacionalmente” e ainda não se sabia da última bronca do bananal. Mas ele é que está imune. Tem o Orçamento que quer, tem três reformas das grandes e ainda manda “bitaites”.

 

A Saúde, a Educação e a Segurança Social é que não têm sido poupadas a cortes. Mas isso não faz mal porque atinge os mesmos de sempre, não é assim?

 

Querem privatizar sectores eminentemente públicos como é o caso da água, o que em boa verdade seria um crime se viesse a ser concretizado. E se calhar até vai, por dez reis de mel coado. E os CTT, empresa lucrativa, que tem desempenhado aquilo que se pode chamar um serviço público? Também vai na mesma molhada?

 

Voltando aos cortes que deveriam ser feitos, muito se podia cortar para além dos automóveis de luxo, dos aviões e dos submarinos. Vejam os telemóveis que devem ser mais que muitos sem controlo, e os gabinetes, e os assessores, e as viagens, e os pareceres milionários, e as almoçaradas e outras festas? É tudo à fartasana e tudo custa muito dinheiro.

 

Entretanto, todos os dias aparecem buracos novos, cada vez maiores. O BPN que já custou aos cofres públicos muitos milhares de milhões, agora deu à luz mais outro buraco de perto de 500 milhões e o que mais adiante se verá.

 

Para contrabalançar tudo isto, no pior dos sentidos, no que respeita à aplicação da justiça, tudo anda descansado, porque a justiça tem a velocidade que tem e só é célere para quem rouba um pão ou um pacote de leite para matar a fome.

 

Do bananal da Madeira, em última hora, também acaba de chegar mais uma bronca das antigas, para além das muitas outras já conhecidas. Desta vez serão mais de 1,6 mil milhões de euros de dívidas que andavam encobertas desde 2008, sem ninguém saber, segundo se diz, o que prova bem a “eficiência” das supervisões. E agora o que fazer, se o homem quer continuar as obras? Apertar mais o cinto e deixar em paz os culpados. É o bicho da madeira a funcionar.

 

Resumindo e concluindo: Se não tivéssemos o buracão do BPN, o buraco ainda maior da Madeira, a vergonha das Parcerias público privadas, a corrupção instalada e o despesismo militante, teríamos a nossa vida facilitada desde que a Justiça funcionasse, incluindo a fiscal.

 

È bem verdade que uns comem os figos e aos outros rebenta-se-lhes a boca. É uma tristeza.

Mas isto acabará um dia. Vamos lá a ver, quando e como, até porque, cuidado, a fome e a injustiça nunca foram boas conselheiras.

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