SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 13:14

Maria Lucília Moita 1928 – 22.08.2011

 

Com todo o respeito que a sua memória me merece, como em vida me mereceu a distinta pessoa que sempre foi, não posso deixar de alinhavar algumas palavras, sinceras, francas e de muita estima e amizade, e porque não dizer, já saudade, em homenagem à ilustre mulher de cultura alcanenense/abrantina, reconhecida pintora e poetisa, que foi Maria Lucília Moita, que agora nos deixou.

 

Comecei a estimar e admirar a Menina Maria Lucília desde muito novo. A minha mãe trabalhou em casa de seus pais, a casa mais bonita de Alcanena e, certamente por isso, este misto de admiração e de respeito pela senhora que foi ainda menina e pela menina que foi sempre enquanto senhora.

Ainda muito novo, recordo a primeira, mas já brilhante exposição dos seus quadros, ainda muito jovem no, final de 1952 na Câmara Municipal de Alcanena.

 

Foi o princípio de uma longa carreira da artista reconhecida, representada em inúmeras colecções particulares e Museus, que ao longo do País continuou sempre as suas exposições em inúmeros salões.

 

Recordo, como se fosse hoje, em data que não posso precisar, no princípio do Verão do ano de 1954, o seu casamento na Quinta de Melo, ali nos Riachos, Quinta que naquele dia estava soberbamente engalanada como se fosse mesmo um palácio. Todo o seu pessoal, mesmo os mais antigos, foi ao seu casamento. Foi um dia inesquecível.

 

Mais tarde, na Quinta da Gonçalinha, em Alferrarede, onde morou alguns anos, ainda rapazito, servi de modelo à sua mão de artista para um dos seus trabalhos, como a minha mãe também serviu de modelo para um retrato fiel que ainda hoje revejo em memória de saudade dupla.

 

Auto-retrato da artista

 

Foi uma artista sempre dedicada ao estudo e ao desenvolvimento da sua arte natural.

Foi uma artista multifacetada que num período de paragem e reflexão da pintura, publicou com muito êxito vários livros de poesia também muito apreciada.

 

Foi uma artista que soube passar para a tela aquelas pessoas mais idosas de Alcanena, a Menina Mariana Correia, a Ti Juliana, o Zé da Quinta, aqueles brancos das casas caiadas a cal, de Alcanena e do Covão do Feto, as oliveiras que ela sempre admirou e trabalhou, e nos últimos anos aqueles Cristos a carvão, sempre diferentes mas sempre exemplares.

 

Tinha o seu ateliê sempre aberto, especialmente a grupos escolares, prestando um verdadeiro serviço à comunidade. Falava da sua arte, das suas coisas e do seu caminho de forma tão simples como encantadora.

 

Já este ano, no dia 2 Março, no Teatro Virgínia, assistiu com a família e um grupo de amigos e de admiradores, à apresentação do filme “Maria Lucília Moita, Imenso Mundo de Dentro” dos realizadores Mariana Castro e Sílvio Santana, que no final enalteceram de forma bem clara e explícita, o quanto foi entusiasmante aquele trabalho dada a total abertura, simples e transparente como a artista lhes franqueou as portas, permitindo assim um trabalho cinematográfico exemplar e digno dos maiores elogios. Como foi encantador o diálogo que manteve com os realizadores. Permito-me transcrever do cartaz do espectáculo: «Um filme documental sobre a pintora Maria Lucília Moita. A artista e a sua obra, o traço que desenha o tempo, a poesia, o espaço pintado da memória.» Depois desta síntese, não há mais palavras.

 

Em Maio último, ainda esteve em Alcanena, na Biblioteca Municipal onde inaugurou a exposição, que afinal seria a última, subordinada ao tema “Vida e obra de Maria Lucília Moita”, onde também foi apresentado o filme que tinha sido estreado em Março em Torres Novas.

 

Para além de muitas outras distinções, foi agraciada com a Medalha de Ouro de Mérito Municipal em 1989 pela Câmara Municipal de Alcanena, nas Comemorações das Bodas de Diamante do Concelho e em 1996 com distinção semelhante pela Câmara Municipal de Abrantes.

 

Como católica convicta que sempre foi, mereceu a concelebração, muito participada, da Missa na Igreja de S. Vicente em Abrantes no dia 23, bem como a Missa celebrada na Igreja de S. Pedro em Alcanena no dia 26.

 

Deixou-nos, para sempre, em 22 de Agosto de 2011. A sua urna lá levava em cima um ramo de oliveira de que ela sempre gostou tanto.

 

As suas cinzas repousam agora no cemitério de Alcanena, depositadas com muito carinho pelos seus familiares, na presença de muitas pessoas amigas, num vaso que depois foi coberto com plantas, entre as campas de seus pais, também elas enlaçadas pela verdura.

 

Paz à sua alma. Condolências sentidas a seu marido, seus filhos e restante família.

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