SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 15:20

Eu não gosto de ter razão…às vezes!

 

Quando na semana passada escrevi neste jornal o artigo “As “Mais-valias”, as “Menos Valias”, o novo IMI e a solidez da Banca”, tive o cuidado de alertar para os perigos que aí virão para todos nós, particulares, economia em geral e de uma forma especial a Banca e todo o sector do imobiliário e claro, a República Portuguesa, fruto da alteração de regras, a meio do jogo, no que respeita às condições dos milhões de créditos à habitação em vigor.

 

Na altura, centrei as minhas preocupações e os meus alertas no aumento do IMI que aí vem por ordem da Troika, toquei muito ao de leve no problema do aumento das taxas de juro dos empréstimos da habitação, mas, porque a situação começa a ficar mais clara e mais preocupante, sinto-me na obrigação de voltar ao assunto, até porque agora até os spreads contratados começam também a estar em risco. Só faltava mais esta.

 

Tudo isto, porque, de acordo com o Público de 18.05.11, fiquei perplexo quando li que “O banco central anunciou ontem a criação de um código de conduta sobre a utilização, nos contratos de crédito à habitação e ao consumo, de cláusulas que permitem a alteração unilateral, designadamente o spread (margem comercial) ou outros encargos”. Quando se diz unilateral, essa prorrogativa é exclusiva dos bancos como facilmente se pode compreender. O cliente que é o outro lado da questão, aquele que, por razões já explicitadas foi obrigado a comprar a habitação que quer continuar a pagar, esse, nestes casos como em tantos outros, não tem quaisquer direitos e sim só deveres. Resta-lhe o recurso aos Tribunais para combater mais esta aberração. Mas como a justiça funciona, muito cara para quem tem pouco e muito demorada para quem precisa de justiça, os pequenos nem se atreverão a ir para os Tribunais.

 

Não sei se foi assim que terá começado a bolha do sub-prime nos Estados Unidos em 2008, que levou à falência de muitos milhares de famílias, de grandes Bancos e outras grandes companhias e ao consequente depauperamento de toda a economia americana que ainda hoje está como está.

Não sei se terá sido assim que o problema do imobiliário em Espanha rebentou, mas os resultados estão à vista desarmada de qualquer leigo.

 

Mas se o Banco de Portugal, no tal Código de Conduta, cria cláusulas que permitem a alteração unilateral das taxas de juro dos empréstimos à habitação, abre, diria até escancara, todas as portas que permitirão aos Bancos entrarem em nossa casa e vendê-la ao preço que quiserem e que o mercado permitir. O que é que daí irá resultar? Um acentuar grave, galopante e muito complicado, das contas dos particulares, das contas das empresas, das contas da Banca e das contas da República. Disso ninguém poderá duvidar, à excepção daqueles que têm pais ricos ou a quem lhes saiu o euromilhões.

 

Aliás, não é por acaso que o mesmo jornal, no seu Editorial da mesma data, com o título: “A bomba-relógio do sector da construção”, é perfeitamente explícito quando fala do profundo ajustamento a que vai estar sujeito o sector da construção civil e do imobiliário nos próximos anos, das desvalorizações que já se sentem em todo o património que terá repercussões negativas nas hipotecas, “ cuja queda de valor pode ter um efeito devastador nos balanços da banca.” E diz mais ainda o referido Editorial, que “Portugal não tem de enfrentar as ameaças de uma bolha imobiliária como a Espanha, mas a pressão combinada de uma queda das vendas e dos preços das casas podem criar um novo vírus para a economia das famílias e do país.” Neste caso até os senhores que querem aumentar as receitas do IMI também deveriam repensar a sua estratégia para que o tiro não lhes venha a sair pela culatra. Cuidado!

 

Eu não gosto de ter razão…às vezes. Mas neste caso concreto do aumento das taxas de juros da banca, aumento este acertado com Bruxelas certamente, aumento gravoso do IMI determinado pela Troika, e agora, para compor o ramalhete o aumento dos spreads, se calhar, acabo mesmo por ter razão, infelizmente. E neste caso gostava de estar enganado para bem das pessoas, das famílias, das empresas, da banca e da República.

 

Ainda quero acreditar que enquanto há vida, há esperança. Aliás a esperança é a última coisa a morrer. Mas a ser assim, começam a estar reunidas todas as condições para as pessoas desesperarem.

 

Espero ainda que o Banco de Portugal reveja de imediato o tal Código de Conduta no que respeita à permissão unilateral da alteração das condições contratuais dos tais empréstimos à habitação para não abrir portas a desvarios.

 

Espero que a Banca não queira correr o risco de algum colapso ao querer resolver de imediato os seus constrangimentos de tesouraria já que nunca se soube, ou quis, financiar a prazos consentâneos com o crédito de longo prazo que ao longo dos anos foi concedendo, crédito este que lhes enchia a carteira todos os dias, com um ataque global aos empréstimos e mutuários, comprometendo assim o seu, deles cliente, seu, deles bancos e o nosso futuro, em termos de nação. Se a banca quiser colaborar activamente na resolução dos seus problemas, e dos problemas dos seus clientes, seria útil que pensasse em substituir as cláusulas de penalização por liquidação antecipada dos referidos empréstimos por um pequeno desconto nesses casos. Isso é que seria um bom serviço à sociedade.

 

Eu não gosto de ter razão…às vezes. E neste caso concreto, não gostava mesmo de ter razão.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados