SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 05:40

Somos todos culpados? Alto aí! E pára o baile!

Não sei bem porquê, quando o aperto se tornou mais visível, apareceu uma série de iluminados, a propalar aos quatro ventos, que todos somos culpados do estado a que isto chegou. É preciso ter lata para nos quererem meter a todos no mesmo barco das confusões, das corrupções, dos compadrios e das trapalhadas criadas nos últimos vinte e tal anos.

Nós somos de facto um povo extraordinário. Temos sido capazes, ao longo dos séculos, de fazer de tudo, do bom e do melhor e do mau e do pior e até aturar estas atoardas.

Na época das Descobertas, demos novos mundos ao mundo, descobrimos novas técnicas de marear, abrimos caminhos marítimos, fizemos negócios com muito do que encontrámos, comprámos ou saqueámos, mas mesmo com todas essas farturas, não soubemos investir em actividades geradoras de riqueza. Foi um deslumbramento. Fizeram-se muitos palácios para as classes dominantes e mantidas as barracas para a maioria do povo, mais ou menos escravizado.

Depois veio outra época áurea, a época do ouro do Brasil, e tudo se repetiu em grandezas e opulências. Mais palácios, mais miséria e uma canga maior em cima do Zé-povinho.

Abriram-se novos horizontes com a chegada da República, mas logo a seguir veio a Grande Guerra, com custos enormes, abriu-se a escola ao povo é certo, mas os disparates e as guerras intestinais sucederam-se até à ditadura e o Zé continuou lixado.

Depois vieram os quarenta e oito anos de obscurantismo, incentivaram-se os monopólios, mas nem da riqueza das colónias soubemos tirar algum proveito, para além dos protegidos do sistema, como outros por essa Europa fizeram.

Mas como há bem que sempre dure nem mal que não acabe, a ditadura foi derrubada, veio a liberdade, algumas conquistas e muitas promessas. Depois da festa apareceram artistas e ilusionistas de várias cores, a servirem-se e a servirem os amigos e chegámos a este estado.

Assim, quando todos os dias vinha um comboio cheio de dinheiro da então CEE, gastou-se o mesmo a rodos com os amigos, criou-se um parque automóvel, público e privado, digno de qualquer país muito rico, fizeram-se obras megalómanas como o Centro Cultural de Belém, a Casa da Música no Porto, estendeu-se betão em tudo que foi sítio, com auto-estradas a torto e a direito, começaram-se as famosas parcerias público-privadas, sempre em favor dos amigos, com contratos de cordeiros a favor dos leões, com derrapagens malucas, a favor dos mesmos. Mas nem o que estava feito conseguimos manter, como as antigas estradas nacionais que são um buraco perfeito em muitos casos e até mais de oitocentos quilómetros de caminho de fero foram encerrados nesse tempo de vacas gordas. Quem sabe se não terá sido pela falta de manutenção que caiu a Ponte de Entre-os-rios e até uma passagem aérea no IC 19? Há quem diga que sim, mas também o contrário. Só que a tal manutenção não era feita. Depois arranjou-se dinheiro para recuperar a ponte caída e construir uma nova ao lado. Tudo à fartasana. Mas soubemos arrasar a agricultura e as pescas, cumprindo ordens da tal CEE, para passarmos a comprar, tudo o que comemos, aos nossos parceiros. Por isso estamos dependentes de tudo o que vem de fora. Essa é que é essa.

Veja-se o caso da construção da Ponte Vasco da Gama. A primeira parceria público-privada levou de brinde, a Ponte 25 de Abril, mais as suas receitas a favor da Lusoponte, mais as outras pontes que se venham a construir até Vila Franca, enquanto que as obras de manutenção e investimento ficaram por conta do Estado. Por mero acaso, o Ministro das Obras da altura foi de imediato para presidente da tal Lusoponte. Foi só mero acaso. Fantástico.

Mas com exemplos destes alguém de bom senso, com a cabeça a funcionar ainda em cima dos ombros, pode aceitar que nos acusem de que somos todos culpados destas trapalhadas?

Só mais um exemplo. O famoso caso desse tal BPN. Veio a crise e foi nacionalizado porque aquilo era um buraco do tamanho das profundezas do inferno. São milhares de milhões que lá têm sido metidos, e ainda não se viu o buraco ao fundo do túnel. Culpados? Somos nós todos? Se calhar deveríamos ir todos para a cadeia para que os artistas pudessem continuar a gastar, aquilo que não é deles, à tripa forra. Compare-se só o tratamento de um tal Madoff nos EUA com os senhores do BPN. O primeiro foi julgado e condenado a 150 anos de cadeia e preso. Por cá, está tudo bem, menos as contas que estão cada vez mais negativas. O povo é sereno.

Até o caso dos submarinos não deve ser esquecido. Foram mil milhões que dariam para comprar vinte navios Patrulha como o que foi recentemente entregue à Marinha, com 6 anos de atraso e a consequente derrapagem. E neste caso dos Patrulhas, fabricados em Viana do Castelo, chegariam uns dez, sempre seria um motivo de crescimento e consolidação da nossa frágil economia e poupavam-se pelo menos quinhentos milhões. Na Alemanha investigam a corrupção que terá envolvido este caso. Por cá, nem por isso.

Poderia continuar com outros inúmeros exemplos. Mas um artigo de jornal tem os seus limites.

Resta perguntar a quem nos lê se acha que somos mesmo todos culpados de tudo isto?

Alto aí! E pára o baile!

Nota final: -O JN de hoje publica um suplemento de 28 páginas, da Direcção de Finanças do Porto, onde são anunciadas 208 vendas em Execução Fiscal de Imóveis e outros Bens só naquele Distrito. Também somos culpados disto?

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