SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 17:41

O meu 25 de Abril de 1974

 

Trabalhava e morada durante a semana em Lisboa. Era solteiro e bom rapaz. Tinha um quarto em casa de familiar na Avenida 24 de Julho, no nº 1, mesmo em frente à Estação do Cais do Sodré. Era empregado bancário no Crédito Predial Português que Deus tem, na sua sede, na Rua Augusta. Levantava-me sempre cedo, e dava para ir a pé até ao serviço, uma vez que só entrava às 9 horas.

 

Naquele dia 25 de Abril de 1974 tudo estava programado para ser um dia igual a tantos outros. Era quinta-feira, mas nesse dia, bem cedo ainda, talvez por volta das 7 horas, a vizinha do lado bateu com muita força à porta a dizer que havia uma revolução. Nem tomei banho. Enfiei umas calças, vesti uma camisa e vim para a janela armado com o rádio, que era inseparável desde o 16 de Março, e com os binóculos.

 

Daquela janela via-se o Tejo todo desde o Terreiro do Paço, desde o Mar da Palha, desde o Seixal até à Trafaria. O rádio, aquele transístor pequeno Sharp, transmitia música portuguesa. Era o Ranho Tá-Mar da Nazaré, lembro-me bem. Pego nos binóculos e vejo nitidamente Carros de Combate, ali para Santos a descerem a Avenida, apoiados por tropas apeadas. Vêm descendo vagarosamente. A Rádio transmite aquilo que foi para mim, o 1º Comunicado do Movimento das Forças Armadas a anunciar a movimentação das tropas, a pedir para que as pessoas não saíssem de casa, a pedir às forças de segurança para não se envolverem com os militares, a pedirem para que os médicos se dirigissem para os hospitais, etc., etc. Começo a compreender a situação. Sinto-me encantado mas preocupado com o que podia vir a acontecer. Não sabia ainda se as forças que vinham a descer a avenida se eram a favor ou contra o Movimento. Mesmo descendo vagarosamente a Avenida, os tanques aproximam-se. Com os binóculos vejo bem que alguns eram de Cavalaria 7, ali na Ajuda. Mas alguns eram de Cavalaria 4, de Santa Margarida, que depois do 16 de Março tinham ido reforçar Cavalaria 7, como vim a saber depois.

 

O Tejo estava cheio de barcos de guerra. Era uma Esquadra da Nato que andava pelo Atlântico em manobras e que dias antes tinha aportado ao Tejo. Curiosamente, esta esquadra só zarpou do Tejo depois da revolução estar consolidada. Vá-se lá saber porquê. Passados que são trinta e sete anos nunca me apercebi que qualquer historiador se tenha debruçado sobre este pormenor, que até poderia ter sido pormaior.

 

As tropas apeadas tomam posição na Estação do Cais do Sodré. Os comboios vão despejando pessoas na gare. Os barcos de Cacilhas despejam também os seus passageiros. Tudo com ar de admiração. Ninguém sabia o que estava a acontecer. Muitos iam apanhar os autocarros para os seus destinos. Os carros de combate passam e dirigem-se para o Terreiro do Paço. Acabo de me vestir, faço a barba à pressa, como qualquer coisa e vou para a rua para ir para o Banco. A meio da Rua do Arsenal, oiço alguns tiros. Eu e muita gente que ia na rua entrámos na primeira porta que estava aberta. Alguns foram até ao segundo andar de um prédio escuro ali perto do Rei do Bacalhau. Senti bem o cheiro da pólvora que me fez lembrar um célebre dia 13 de Junho de 1969 em Bissau. Como não se ouvissem mais tiros, dei meia volta e resolvi voltar para trás. Aliás a rádio já tinha avisado para as pessoas se manterem calmas, mas em casa.

 

Antes de subir ao meu quarto andar, fui à mercearia do Coutinho, ali na Travessa dos Remolares, procurar mantimentos. Ao lado, nas traseiras do Mercado da Ribeira, na Rua dos Remolares, estava uma coluna enorme de jipes da GNR armados com as Mausers, e se calhar com outro armamento mais pesado mas não à vista, todos de capacete na cabeça e parados. Estavam à espera de ordens. Se calhar, pensei eu, estavam do contra e pretendiam ir reforçar alguma posição, talvez no Carmo uma vez que a Rua do Alecrim, ali perto lhes daria acesso fácil. Mas não liguei muito. Aliás não podia ligar. A minha preocupação naquela altura era só os mantimentos e já seriam umas 10,30. Não havia tempo a perder. Na mercearia já não havia pão, mas havia vários fregueses. Comprei bolachas de água e sal, um garrafão de água do Luso, daqueles de vidro daquela altura, umas latas de sardinha, de atum e salsichas, velas, fósforos e pilhas para o rádio. O rádio tinha que estar em condições de trabalhar sempre. Em casa ainda havia batatas, arroz, massa e azeite, Tudo aquilo sempre daria para se fazerem umas refeições de subsistência porque em tempo de guerra não se limpam armas. Mas eu queria telefonar para Torres Novas e para Alcanena. Mas onde, se em casa não havia telefone? A minha tia lá arranjou um almoço catita e lá continuámos a ouvir a rádio com comunicados mais ou menos calmos, mas a denotar que nem tudo ainda estava resolvido. Televisão não havia. O reviralho parecia estar prestes a chegar.

 

Da minha janela privilegiada começo a ver a Esquadra da Nato a zarpar do Tejo. Ficou só uma Fragata, nossa, que também estava integrada na Esquadra, mas ficou. Foi essa Fragata que ainda de manhã cedo teve um papel preponderante no triunfo da revolução quando não cumpriu a ordem de atirar fogo para o Terreiro do Paço, segundo depois se soube. Se isso tivesse acontecido teria havido uma carnificina. Mas a Fragata também sofreria as consequências das peças de Artilharia da Escola de Vendas Novas que estavam posicionadas no Cristo Rei. Foi melhor assim.

 

De tarde, a meio da tarde, talvez lá para as 4, procurei ir aos Correios, ali à Praça de D. Luís, para telefonar. Foi nessa altura, soube mais tarde, que houve confrontos junto à sede da Pide na Rua António Maria Cardoso. Ainda conseguiram matar um popular e ferir mais alguns. Ouvi as balas a assobiar a passar lá muito por cima. Voltei a entrar numa porta que estava aberta e não fui sozinho. Depois as coisas acalmaram, certamente quando a Marinha conseguiu tomar aquilo de assalto. Ainda fiz os telefonemas e todos ficámos mais descansados. Quando ia para casa, ali junto, na Praça Duque da Terceira, vejo que a Rua do Alecrim estava cheia de carros de bombeiros, certamente para combater algum incêndio que a Pide pudesse vir a provocar. Ainda pensei ir ao Carmo, mas já não era possível. Era tudo um mar de gente.

 

Lá fui continuando a ouvir a rádio. Fala-se do quartel do Carmo. Pensei que os outros GNR’s talvez estivessem a caminho do seu Quartel-general para reforçar posições. Mas não conseguiram atingir o objectivo uma vez que as tropas do Salgueiro Maia, depois da consolidação do Terreiro do Paço, tinham ido lá para cima onde estava refugiado o Marcelo Caetano.

 

Depois, depois foi aquilo que já se sabe. À noite, na casa da vizinha do lado, lá vi o Spínola a fazer o seu comunicado ao país ladeado pelos restantes membros da Junta de Salvação Nacional.

 

Foi assim o meu dia 25 de Abril de 1974. Estávamos num país novo.

 

Daí para cá muito de útil se fez, mas também se fizeram imensos disparates, cometeram-se erros deliberadamente ou não, a vida alterou-se em muitos casos para melhor, mas hoje já não sabemos como vai ser o dia de amanhã. Por isso fica o relato daquele meu dia, para que a memória não esqueça, antes que seja “proibido” falar-se do 25 de Abril.

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