SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 19:47

Mais austeridade para os mesmos? Não, obrigado!

 

Os efeitos esperados da austeridade que nos “ofereceram”, começam a desesperar os que menos podem e mais precisam. Mas o mal é que nem todos sofrem, nem são penalizados da mesma forma. É o habitual nestas coisas. O desespero já ataca grandes franjas da população. Cuidado!

 

Entretanto os políticos dizem, como se não houvesse mais nada a fazer, como se eles não pudessem e devessem cortar na sua própria gordura, a gordura de tanta coisa supérflua que foram criando para si e para os seus fregueses, ao longo dos anos, que se for preciso, quer dizer se os donos da Europa mandarem, estão prontos para aplicar mais medidas de austeridade, aos mesmos, digo eu.

 

Apesar de saber que eles estão informados, também sei que não lhes levam a ler tudo o que se escreve. Assim, só com o sentido de os informar, para que se compenetrem que a insatisfação é muita e começa a ser perigosa, para que possam pensar melhor e corrigir o tiro das armas com que nos atacam, para que não digam que não sabiam, passo a transcrever, com todo o devido respeito, parte de um artigo de opinião da secção ICORREIO, do jornal I, publicado na edição de 01.03.11, da autoria de António Carvalho, que diz o seguinte:

 

““Eu acho que todos os que se empenham para que Portugal ultrapasse as suas dificuldades se deviam regozijar com os bons números da execução orçamental. Eu não percebo como é que alguém fica maldisposto quando os números são bons”, afirmou Sócrates! Ora bem, senhor primeiro-ministro: V.Exª. consegue perceber porque é que o proprietário de uma ourivesaria não fica bem disposto quando é assaltado por um fulano educado (empenhado em ultrapassar as suas dificuldades momentâneas) e que no final do serviço ainda lhe diz, em jeito de satisfação, que o valor apurado foi superior ao esperado? Os números da execução orçamental são bons porque a receita com os impostos subiu 15%… Só que, para os mais realistas (os que não se regozijam com tais indicadores), os impostos não podem andar a subir indefinidamente. Imagine o tal assaltante, educado, ter criado uma certa empatia com o assaltado e começar a fazer regra daquilo que deveria ser uma excepção! A breve termo daria para desenrascar, mas não teria qualquer viabilidade a médio ou longo prazo, por falência do lojista e possível detecção do visitante! E é mais ou menos por causa de idêntico cenário, muito semelhante mesmo, que cada vez menos portugueses se regozijam com o empenhamento mostrado em ultrapassar as dificuldades do país (que deveria ser acentuado, isso sim, na redução da despesa – que não foi além dos 2,6%) e se mostram cada vez mais maldispostos quando os números até parecem bons. É que o fisco, com os seus muitos funcionários muito bem-educados, abocanha já 48% de toda a riqueza produzida, o que, diga-se de passagem, afasta qualquer cidadão do legítimo sonho de um dia vir a ser ourives!”

 

O autor foi claro naquilo que todos sentimos todos os dias. Mas o seu artigo poderia ter sido muito mais abrangente se se tivesse lembrado de que também outros organismos do Estado, incluindo por exemplo o acesso à Justiça cada vez mais caro, o acesso aos cuidados de saúde onde se inclui o transporte de doentes que quase desapareceu por obra e graça de um “irrevogável Despacho”, o acesso à educação cada vez mais cara, e até as Câmaras Municipais que andam à procura de verbas, estão a sujeitar os seus munícipes a todo o tipo de taxas exorbitantes, depois de lhe ter começado a faltar a grossa fatia dos impostos da construção civil que parou. Sim, as autarquias, na generalidade claro, porque algumas delas ainda não descobriram esse filão, atacam a torto e a direito, tudo o que são taxas de tudo e mais alguma coisa, com percentagens escandalosamente preocupantes, porque surrealistas, especialmente para o pequeno comércio, o chamado comércio tradicional e de bairro ou de aldeia, que dizem defender, mas só o atacam, como atacam o comum utilizador dos seus serviços mais simples.

 

Vejam-se ainda, por exemplo, as facturas da água ou da luz. A maior parte do que pagamos, para além do produto específico estar pelas horas da morte, são taxas encapotadas. Veja-se o problema dos combustíveis, onde a fatia grande são impostos.

 

Meus senhores e minhas senhoras. Isto assim não vai durar muito tempo. Vejamos e reflictamos no que se está a passar no Norte de África, no Médio Oriente e até já com ensaios em Angola. É certo que cá pela Europa, nos últimos tempos não temos tido ditaduras como aquelas. Mas com este viver, as coisas também se podem complicar. Aliás, quando este artigo sair, estará a ser ensaiada uma manifestação que quer juntar 1 Milhão de jovens em Lisboa. E uma multidão destas, se vier a ser congregada, pode desafiar muita coisa. Cuidado. É assim que as confusões começam por causa de outras confusões.

 

O Estado, se fosse mesmo uma pessoa de bem, devia dar bons exemplos. Como já aqui disse várias vezes, o Estado tem que cortar nas gorduras e quanto mais tarde o fizer, pior será. Pode e deve cortar uma percentagem significativa nos orçamentos da P.R., da A.R. e em muitos órgãos do Estado a começar por muitos dos vários Institutos, das Fundações, das Entidades e Autoridades e a continuar nos Governos Civis, mesmo antes de os extinguir como acontecerá a breve prazo, e até nas Câmaras Municipais pois muitas delas podem bem prescindir de algum ou alguns dos seus Vereadores, para melhorarem a sua conta de exploração. Portanto, cortar nas despesas supérfluas, carros a mais, viagens mais que muitas, almoçaradas e outros banquetes quase diários, telemóveis e internetes à fartasana, para além dos cortes já feitos nos ordenados e nos benefícios sociais, é que faz falta para animar a malta, que está desesperada.

 

No ano passado o Fundo de Pensões da PT serviu para ajudar a que os números não tivessem sido piores. E este ano estão na manga os Fundos de Pensões dos Bancários, como mais um trunfo a utilizar. É uma carta a sair da cartola na altura que os senhores considerarem mais conveniente. São muitos milhões, mas estas manobras não duram sempre. Por isso é indispensável que as gorduras sejam cortadas, já. Não podem continuar a fazer, como fez há pouco a AR, com os partidos do centrão a não aprovaram projectos que visavam corrigir os vencimentos obscenos dos gestores das empresas públicas, só porque esses lugares estão sempre reservados para os que passam pela política activa, como resulta da rotatividade de funções a que já estamos habituados, pelos partidos do centrão que se digladiam só aparentemente, mas nestas coisas dos seus interesses, estão sempre de acordo. E nós sabemos e sabemos que eles sabem que nós sabemos. Mas não têm pinga de vergonha.

 

Neste período de mudança, algo tem que ser mesmo mudado, ainda que com algum prejuízo para quem não está habituado a fazer sacrifícios. Mas tem que ser feito, enquanto é tempo, para que as pessoas acreditem.

 

Porque gosto muito do meu País, porque o meu País tem oito séculos de história de que poucos se podem orgulhar, temos que deixar de andar de cócoras perante a chanceler da Europa. Mas tem que ser feita alguma coisa de palpável e visível que desta vez não ataque os mesmos, até porque o caso da ourivesaria está bem explícito.

 

Quando e por onde é que vão começar? Têm muito para fazer. E amanhã pode ser tarde.

Mais austeridade, para os mesmos, não obrigado!

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