SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 15:20

Estamos num país fantástico

 

Estamos mesmo num país fantástico, rodeado de empresas monopolistas, mesmo que com capitais públicos, especialmente as das novas tecnologias, portanto entregues à bicharada desta selva.

 

A dona édêpê anda a gozar com uma parte do Bairro de Santo António, aqui em Torres Novas, desde o Verão que já passou. Primeiro foi a luz pública que esteve apagada uma semana. Atamancaram essa avaria, começaram os cortes nas casas. Várias vezes, durante várias semanas. Depois houve alguma acalmia mas durante algumas semanas raro foi o dia, ou melhor a noite, em que não ficámos às escuras. Ultimamente os cortes são cirúrgicos, só algumas fazes, públicas e ou privadas, como me disse o meu amigo Presidente da Junta, e nem sempre as mesmas, digo eu. Parece que vão fazendo rotação para que o mal seja dividido pelas aldeias, isto é pelas várias casas. Mas ainda segundo o meu Presidente da Junta, que terá tido algum contacto superior com alguém da dona édêpê, parece que a empresa reconhece que é necessário fazer investimentos nesta zona. Vá lá. Só não lhe disseram quando. Isso já se sabia. E nós, pachorrentamente, cá vamos pagando as facturas que nos apresentam, cumprindo a nossa obrigação, só que em sentido contrário, a obrigação da dona édêpê, vai sendo cumprida aos soluços. Estamos bem servidos.

 

Até aqui há ruas deste Bairro alargado, que mesmo tendo luz pública e privada, quando ela falta noutras ruas, ficam sem têvêcabo, portanto sem televisão. Isto está mesmo muito bonito. Até isto o meu amigo Presidente da Junta sabe porque a sua casa, também vai tendo os seus cortes de televisão, segundo ele me disse.

 

No verão parece que era do calor. Agora no Inverno será certamente do frio. Se calhar temos que fazer uma subscrição para comprarmos um aparelhómetro de ar condicionado para que a senhora dona édêpê não tenha calor no verão, nem frio no inverno, mas, claro, esse aparelho terá que ser a pitrol uma vez que a luz não é de confiança.

E por falar destas avarias da dona édêpê é bom recordar-se que o piquete está estacionado em Abrantes e tem pouco que fazer. É sempre muito rápido. Pelo menos, para além do concelho de Abrantes, só terá mais Constância, se calhar Sul e Norte, a Barquinha, o Entroncamento, Torres Novas e até talvez Alcanena onde tem que prestar assistência a essas malvadas avarias. Talvez não sejam bem 200.00 pessoas, mas andará lá perto. Portanto, o tal piquete não tem muito que fazer e sempre o patrão poupa umas massas galhardas. Lá vai o tempo em que o piquete era para o concelho de Torres Novas e estava lá em baixo na Central. Lembram-se?

 

Mas a dona pêtê não é melhor. Corta-nos frequentemente o pio da Internet, às vezes até o do telefone, até temos que pagar as chamadas para avisar os senhores, como se fossemos seus criados, que estão a acontecer avarias e por cá ficamos à espera que se dignem ligar as coisas. Mas isto não é uma ou outra vez. Às vezes são dias seguidos. Aliás, cada vez está pior e tanto faz no verão como no inverno. Modernices, digo eu. Mas neste caso o piquete só vem ao fim de alguns dias e depois de muitas insistências. Não vêm fazer nada porque eles sabem que o mal é dos seus serviços, das suas linhas, dos seus servidores ou das suas centrais, porque a dona pêtê também não sabe fazer investimentos para apresentarem lucros escandalosos nos seus balanços. Mas ao fim de uns dias, essas equipas técnicas vêm para ver e dizer que afinal está tudo bem.

Resumindo e concluindo, a dona édêpê não tem dinheiro para substituir linhas com mais de cinquenta anos, mas tem dinheiro que sobra para dar fortunas a alguns dos seus gestores que, como se vê, sabem gerir bem a coisa que devia ser pública, para a gente saber mesmo a quem se devia queixar. A outra, a dona pêtê, não tem também dinheiro para fazer investimentos, mas tem dinheiro que sobra para encher os cofres dos seus grandes accionistas, até sem pagarem impostos. São as tais engenharias financeiras. É tudo legal e o povo que paga tudo e mais alguma coisa, que se lixe. E a quem doer a barriga, que a aperte.

 

No meio de toda esta bagunça, há uma coisa que me dá um gozo excepcional. Quando ligamos a comunicar as avarias, aquelas chamadas são muito engraçadas. Primeiro espera-se o tempo que os senhores querem. Mas vão-nos informando que estamos à espera como se não tivéssemos dado por isso. Depois temos que marcar o 1 para não sei o quê, o 2 para outra coisa qualquer, o 3 idem idem aspas aspas. São muito engraçadas aquelas chamadas que demoram tempos e tempos. Só é pena e que ultimamente já não nos dão música. Agora é mais palavreado para não adormecermos ao telefone. Estas modernices são mesmo engraçadas. E acabam sempre da mesma maneira, mesmo sem resolverem nada: “Mais alguma questão que queira colocar?” É mesmo engraçado. Mas a gozar com o pessoal, só pode ser.

 

Estamos mesmo num país fantástico e bem entregues. Quem é que nos pode ajudar?

Só me apetecia perguntar o que é que nós poderíamos cortar àquelas empresas quando elas nos cortam os seus fornecimentos. Mas perguntar a quem se ninguém nos liga?

No fim deste muro de lamentações, desejo um Bom Natal para todos, leitores, assinantes e anunciantes, equipa de Administração, Direcção e Redacção de O Almonda e até para as donas édêpê e pêtê. E ainda votos de que sobrevivamos mais um ano, para contarmos o que foi o 2011, que nos promete tudo de mau e do pior.

 

Carlos Pinheiro

04.12.10

 

Nota: Para que não fiquem dúvidas e para que não apareçam desculpas esfarrapadas, atenção que estas avarias sistemáticas não têm nada a ver com o tornado dos últimos dias. Aliás, este artigo já tinha sido escrito antes daquela tragédia que abalou, e de que maneira, alguns concelhos próximos.

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