SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 09:05

Ainda os 35 anos do 25 de Abril

 

Tive há dias, mais propriamente a 28 de Abril, oportunidade de ler um artigo de Miguel Gaspar, no Público daquele dia, acerca das comemorações habituais do dia da liberdade onde o articulista dissertou sobre “As nostalgias erradas”.

 

Porque achei tal artigo muito oportuno, não posso deixar de transcrever do mesmo: – “ A nostalgia é um convidado omnipresente dos aniversários do 25 de Abril…Há uma nostalgia da direita quanto ao 25 de Abril que não devia ter acontecido… E há uma nostalgia de esquerda quanto ao 25 de Abril que nunca devia ter acabado, ou pelo menos não devia ter acabado como acabou”. São verdades que todos conhecemos, que todos sentimos, todos os, dias nos círculos que frequentamos mas que ficam bem ser relembradas.

 

No entanto o articulista não disse, mas digo eu, que, se o 25 de Abril não resolveu tudo, mesmo assim ajudou a resolver muita coisa. É bom que se diga, para que a memória dos mais velhos não esqueça e para que a memória dos mais novos fique a saber, que nos finais da década de 60 e princípios da década de 70 do século XX, aqui em Portugal eram proibidas coisas, que hoje consideramos corriqueiras, como beber uma Coca-Cola, acender um isqueiro na rua sem licença para tal ou até as mulheres seguirem carreiras como a magistratura ou a diplomacia. Tudo isso era proibido, pasme-se! Mas também era proibido a pessoas reunirem-se, também era proibido discordar-se publicamente do poder, era proibido falar-se da guerra colonial e especialmente daqueles muitos que lá iam morrendo, e por tudo isto as prisões continuavam cheias dos chamados presos políticos. E os que podiam ser considerados mais perigosos tinham o Tarrafal à sua espera, onde a “frigideira” era o expoente máximo de todas as sevícias.

 

Eram pormenores que exemplificaram a forma de ser e de estar dum regime podre, caduco e autista como são todos os regimes ditatoriais no final das suas vidas. Tinha havido a chamada “Primavera Marcelista”, uma operação de cosmética que sacudiu o país, com uma época de reforma onde muita coisa mudou de nome para ficar tudo na mesma. A PIDE passou a chamar-se DGS, as Colónias foram rebaptizadas de Províncias Ultramarinas, a União Nacional, o partido único da altura, passou a chamar-se Acção Nacional Popular e até a Polícia de Viação e Trânsito acabou, passando a sua missão para a GNR com o nome de Brigada de Trânsito. São meros exemplos, ao acaso de entre muitos, daquele tempo e daquela época de reformas. Mas ainda podemos dizer que nessa altura as mulheres deixaram de necessitar de autorização do marido para sair do país, mas continuaram a não poder votar para as Juntas de Freguesia. Era assim aquele tempo.

 

Falar-se destes 35 anos talvez não seja necessário porque a história ainda está viva, porque há mais conhecimento e porque há mais informação. Mas sempre se pode dizer que nem tudo foi feito da melhor forma e sem motivos para reparos. Foi feita muita asneira, mas também se fez muita coisa boa e apesar de tudo temos que considerar o balanço como positivo. Por exemplo, o Serviço Nacional de Saúde que não existia e ultimamente tem sido tão atacado por interesses comerciais, o direito à Educação apesar do mesmo andar há tempos a ser desvirtuado, o saneamento básico e a distribuição de água e electricidade ao domicílio, hoje tão vulgares e que só existiam nos maiores aglomerados populacionais, até os telefones, fixos claro, demoravam anos a instalar e muitas vezes dependiam da cor do freguês.

 

É certo que hoje estamos a viver uma crise nunca antes vista. Mas é precisamente nestas alturas que a memória colectiva tem que ser avivada para não embarcarmos em demagogias e populismos perigosos que podem vir a pôr em causa valores fundamentais como a democracia, os direitos, liberdades e garantias individuais que no outro tempo, pura e simplesmente, não existiam.

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