SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 11:58

35 Anos do 25 de Abril

 

Parece que foi ontem e já lá vão 35 anos. Depois daquela madrugada de esperança, depois daquele primeiro 1º de Maio da fraternidade, depois de tantas andanças estamos como estamos. Mas o 25 de Abril, ou outra data qualquer, tinha que acontecer. Já tinha havido o ensaio geral do 16 de Março. Já tinha havido tantos outros sinais desprezados. O regime estava podre, orgulhosamente só. Teimosamente, ou com determinação, como agora se diz, fomos o último país a libertar as colónias. Mas foram precisas três guerras cruéis, de 13 anos de luta armada, na Guiné, Angola e Moçambique. Fizemo-lo apressadamente com os resultados conhecidos. O prazo para as coisas se resolverem com dignidade para as partes já tinha expirado há muito.

 

Já lá vão 35 anos depois daquela madrugada de esperança que libertou o país duma noite escura de 48 anos de ditadura. Nem os sinais das eleições de 1958 despertaram as consciências dos ditadores. Antes pelo contrário, acirraram-nas. Nem os sinais do Movimento Militar Independente de 1959 foram analisados. Nem o desvio do “Santa Maria” em Janeiro de 1961 serviu de prenúncio aos mandantes para inverterem as suas políticas ditatoriais. Nem o 4 de Fevereiro em Angola, nem a tentativa de golpe de estado do Botelho Moniz em 13 de Abril e nem sequer a invasão de Goa., Damão e Diu a 18 de Dezembro, tudo no ano de 1961, serviu para que o país “orgulhosamente só” procurasse um rumo digno da história.

 

O ano de 1962 começou com a revolta de Beja, também falhada, porque, diga-se em abono da verdade, estando o regime podre, mesmo assim tinha sempre esbirros pretorianos de serviço, fiéis à causa. Nem o assassinato de Humberto Delgado em 1965 serviu de alerta à consciência, à camarilha que envolvia os detentores do poder que aquilo não podia continuar assim. Nem o manifesto dos 118, divulgado em Dezembro de 1966, pôde contribuir para uma inversão do sistema. Nem as broncas dos “Ballets” de 1967 valorizaram a podridão reinante. Foi tudo abafado. Nem a queda da cadeira do ditador em 1968 serviu para pararem e pensar. Pensar, pensaram e até arranjaram um continuador, mas não pararam. Nem a crise académica de 1969, nem o Congresso Republicano de Aveiro do mesmo ano, abriram as consciências empedernidas. Nem sequer o facto do Papa Paulo VI, em 1970, ter recebido os dirigentes dos Movimentos de Libertação das Colónias serviu para que o rumo fosse mudado, antes pelo contrário, este facto sem precedentes acabou por ser escamoteado pelo poder da altura. Nem a morte do ditador também em 1970 fez arrepiar caminho.

 

Mas todos estes factos, aliados à dureza e ao esforço da guerra cada vez mais desgastante, tanto em divisas como em mortos em combate, bem como o incremento da emigração que possibilitou conhecimentos de outras realidades ao povo, acabaram por levar o país para a tal madrugada de esperança que foi o 25 de Abril de 1974. Não havia outra solução. Até a esquadra da Nato, surta no Tejo naquele dia, só zarpou para o Atlântico depois de se confirmar o êxito do Movimento das Forças Armadas. Um pormenor importante que tem sido muito esquecido ao longo dos tempos pela generalidade dos historiadores. Se as coisas se tivessem complicado, qual teria sido o papel das forças embarcadas? Nunca se chegará a saber porque isso não aconteceu. Mas porquê? Por medo dos então responsáveis de não poderem fugir como veio a acontecer a muitos? Sabe-se lá.

 

O estado a que o país tinha chegado, não podia continuar. O prazo tinha acabado. Tinha que haver uma mudança. E houve. Só que, passados 35 anos, infelizmente, e dando-se razão a quem nunca a teve, estamos como estamos. Porquê? É caso para perguntar nas comemorações que se vão fazer por todo o país.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados