SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 13:32

Ex-combatentes “são uns heróis e um exemplo”

O Presidente não tem dúvidas: “Devemos-lhes muito. São uns heróis. São um exemplo”

Era este o título da notícia DN/Lusa, de 10 de Junho, acerca das comemorações do Dia de Portugal, presididas pelo Presidente da República, Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, no Porto.

Começo por fazer uma declaração de interesse acerca do assunto deste artigo: sou ex-combatente. Embarquei para a Guiné, no UIGE, em 23 de Outubro de 1968 e desembarquei em Bissau em 28 de 0utubro de 1968. Embarquei de regresso da Guiné em 13 de Novembro de 1970, no CARVALHO ARAUJO, e desembarquei em Lisboa no dia 21 de Novembro de 1970.

Falando das comemorações do Dia de Portugal e especialmente do envolvimento do Presidente da República, já depois das cerimónias oficiais, com um grupo de ex-combatentes, que cumprimentou um a um, proferido perante tal grupo palavras simpáticas de apreço pelos ex-combatentes, daí o título da notícia do DN, que eu aproveitei com a devida vénia.

Logo na altura e na própria notícia, coloquei o seguinte comentário online: “Os ex-combatentes não são heróis mas foram uma geração sacrificada, que nunca viu reconhecidas pelo poder as suas missões ingratas, perigosas (morreram lá 10.000 combatentes e muitos milhares ficaram feridos e estropiados), a sua entrega sem condições, sem aquartelamentos, sem equipamentos, sem preparação, como se fossem mesmo só carne para canhão. É pena. Os ex-combatentes mereciam pelo menos reconhecimento oficial como outros países sempre fizeram aos seus combatentes. Não é uma esmola de 100€ por ano, mesmo assim só para alguns, que reconhece o que sofreram, o que fizeram e as condições em que o fizeram. Pode ser que este PR, com a magistratura da sua influência, sensibilize o poder para que se faça aquilo que ainda não foi feito.”

Entendo que as palavras do Presidente da República foram agradáveis, foram bem recebidas pela generalidade dos presentes e por muitos que tiveram oportunidade de as ler, mas também se notou da parte de muitos camaradas um cepticismo latente dado o abandono a que todos foram votados a partir do momento em que desembarcaram no regresso. Pode ser que, desta vez, finalmente, se passe das palavras às obras. Mas, há sempre um mas, como os poderes só se lembraram de os mobilizar à pressa, os mandaram embarcar, com escassa preparação, em muitos casos sem o mínimo de condições de viagem – só quem não viajou nos porões é que desconhece a vida naqueles “quartos particulares” com 600 beliches pregados uns aos outros e com um colchão de palha, muitas vezes sem uma manta, quanto mais com um lençol, com cheiros nauseabundos e de onde só se via a luz do dia pela boca do porão – é natural que neste “final de viagem” apareçam alguns sentimentos de revolta pela ingratidão que receberam de quem os devia estimar.

Para que de algum modo se possa confirmar a forma como os ex-combatentes foram tratados, não resisto a transcrever uma pequeníssima parte do Livro “Luta Incessante”, editado em 2005 por António Teixeira da Mota, filho do Sargento Justino Teixeira da Mota, falecido em Angola em 18 de Outubro de 1962. A sua mãe, a viúva, recebeu do Depósito Geral de Adidos em 27 de Novembro de 1962, o seguinte telegrama, página 26 do citado livro: “Informo foi recebida comunicação Angola informando ser possível transladação metrópole restos mortais seu esposo 2º Sargento Justino Teixeira Mota caso deseje informar urgentemente este depósito e depositar dez contos ou indicar fiador idóneo. Comandante DGA”. Sobre este caso concreto, convém dizer que o autor do livro com a sua “Luta Incessante” para ver de volta os restos mortais de seu pai, conseguiu os seus intentos e finalmente os mesmos chegaram ao cemitério de Travanca, em Amarante em 16 de Abril de 1996, trinta e quatro anos após o nefasto acontecimento, tudo pela força do filho e da cumplicidade, no melhor sentido, de militares amigos da família. Era assim que os mortos eram tratados e por isso ficaram tantos por lá.

Permito-me agora transcrever do livro “Nos Celeiros da Guiné – Memórias de Guerra” de Albano Dias Costa e José Jorge Sá-Chaves, e prefácio do General António Ramalho Eanes, algumas pequenas passagens que ilustram bem as condições de sobrevivência e as obrigações de combate que foram impostas a muitos ex-combatentes, neste caso aos da Companhia de Caçadores 413 e bem assim a dedicatória aos seus mortos em combate: “Em quase todas as pequenas localidades, havia, junto do edifício do posto administrativo, um celeiro da administração, desocupado na sequência do inicio das hostilidades, que veio a ser utilizado como caserna pelos destacamentos militares entretanto instalados nessas povoações.” (p. 5 ) – E estes ainda encontraram essa espécie de celeiros, a maior parte em ruína dado o abandono a que foram votados e outros nem isso. (p. 9)- “Dedicatória – À memória dos camaradas da CC 413 que não envelheceram, tombados na Guiné, no cumprimento da comissão de serviço que lhes foi imposta, o Ataliba Pereira Faustino, o Francisco Marques Valério, o José Gonçalves Pereira, o José Basílio Moreira, o José Rosa Camacho, o José Pereira Rodrigues, o José Ramos Picão e o Joaquim Maria Lopes, em relação aos quais carregamos a culpa de estarmos vivos.” (p. 11) – “Poderia esta obra ter por título “Duas variações dramáticas sobre o mesmo tema”, dado que o tema, fundamental, são os jovens soldados na guerra – na guerra da Guiné -, que a guerra definitivamente marcou, roubando, a uns, a vida, incapacitando, fisicamente, outros, marcando de angústia indelével o subconsciente e a memória não só destes últimos mas, também, a de todos os que lhe sobreviveram.” Ainda da mesma página: “…descreve, factualmente, a actuação da mesma Companhia “no teatro de operações daquela ex-colónia, quer como unidade de quadrícula, assegurando a defesa de cerca de uma dezena de aquartelamentos disseminados por uma vasta área do norte da Guiné, quer como unidade de intervenção especialmente direccionada para a zona do Morés, principal bastião da guerrilha a norte de Bissau”.

Não vale a pena continuar a fazer transcrições porque há muita bibliografia sobre a guerra colonial que pode ser consultada um pouco por todo o lado. De qualquer forma esta foi uma oportunidade para lembrar aos poderes constituídos que Portugal esteve em guerra durante 13 longos anos, em três frentes de combate – Guiné, Angola e Moçambique – teve cerca de um milhão de jovens em armas nesse período e as marcas, para além das mortes, ficaram para sempre gravadas na memória dos combatentes e dos seus familiares directos.

Quanto à notícia, creio que o Presidente da República, com a abertura que deu aos ex-combatentes no Porto, criou legítimas expectativas, especialmente aos que foram abraçados e a quem foram dadas palavras de ânimo, pelo que algo de visível e de palpável terá que ser feito aos resistentes ex-combatentes. Mas atenção, a título póstumo eles já não precisarão de nada.

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