SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 19:25

Recordar é viver: A visita do Papa Paulo VI a Fátima no 13 de Maio de 1967

Na semana em que o Papa Francisco visitou Fátima por ocasião das comemorações do Centenário das Aparições, ou Visões como agora se diz, quero partilhar dos meus “apontamentos” – ALCANENA, TERRA DA SOLA…Memórias das décadas de 50 e 60 do século XX”, a parte que respeita à visita do Papa Paulo VI a Fátima nas comemorações do Cinquentenário.

“A primeira visita papal a Fátima também movimentou de algum modo o concelho de Alcanena. Foi montada uma operação de segurança em larga escala com a intervenção de todas as autoridades não só para o percurso de Monte Real a Fátima visto que o avião papal aterrou naquela Base Aérea, mas também por toda a região envolvente. Por exemplo, no dia 13 não se podia circular de Alcanena para Minde e Fátima. Esse troço de estrada era só descendente. As pessoas de Alcanena que nesse dia quiseram ir a Fátima tiveram que ir por Torres Novas, Ourém e então Fátima, ou melhor, arredores onde foram criados inúmeros parques para automóveis. Por falar em automóveis, naquele dia todos os carros de praça, puderam fazer praça em Fátima para servir os muitos milhares de peregrinos que tinham os seus carros aparcados a grandes distâncias.

O Papa Paulo VI no Santuário de Fátima, com a Irmã Lúcia a seu lado – Foto de autor desconhecido – Direitos reservados

As operações de trânsito foram rigorosamente controladas pela Policia de Viação e Trânsito que estava em todos os cruzamentos a fazer cumprir o programa. E Alcanena também teve honras de ter a PVT no Lavradio a impedir que o trânsito seguisse no sentido de Moitas Venda. Alcanena nesse dia, por motivos óbvios também teve um dia diferente com muito trânsito e muitas paragens.

Também o percurso papal, entre a Base Aérea de Monte Real onde aterrou o avião Caravela da TAP, devidamente transformado e pintado com as cores do Vaticano, que transportou Sua Santidade, e Fátima, passando por Leiria, estava devidamente vigiado e sempre acompanhado pelas autoridades.

Apesar de ter sido um dia chuvoso, pelo menos a partir da tarde, foi um dia memorável que a RTP, com os meios rudimentares da época, conseguiu captar e transmitir as melhores imagens das cerimónias para todo o mundo, tendo a transmissão sido feita através de um retransmissor instalado num helicóptero que esteve fixado, a grande altura, por cima do Santuário que nesse dia teve certamente uma das suas maiores enchentes. Falava-se num milhão de pessoas, mas é muito difícil que este, ou qualquer outro número, possa ser confirmado. Mas estavam muitas centenas de milhar de pessoas. Fátima estava mesmo cheia, por todo o lado, de gente de todos os cantos de Portugal e do Mundo.

Esta operação da RTP, transmitida via Eurovisão, demonstrou já uma apreciável evolução dos meios de comunicação da época.

Fátima já dispunha desde 1960 de Serviço Telefónico automático ao passo que o serviço manual de telefones ainda durou em muitas cidades até depois do 25 de Abril, como era o caso de Castelo Branco e da Guarda. Fátima foi uma excepção, por motivos óbvios. E o serviço, tanto de telefonistas como de pessoal técnico, era assegurado por equipas da Central Telefónica e das Oficinas anexas à Estação dos CTT de Torres Novas que nessa época era um dos centros nevrálgicos das comunicações em Portugal.

Essa peregrinação de Maio de 1967 foi certamente das que mais pessoas ali juntou no Santuário apesar do dia ter sido de chuva, mas era a primeira vez que um Papa vinha a Portugal. Era de facto um mar de gente a que tivemos oportunidade de assistir.

Paulo VI, recebido por uma multidão imensa, foi também recebido pelo séquito do Estado da altura, nomeadamente pelo Presidente da República, Almirante Américo Tomás e pelo Presidente do Conselho Dr. Oliveira Salazar que naquela cerimónia, esqueceram o conflito diplomático que tinha acontecido anos antes, quando Paulo VI em Dezembro de 1964, tinha feito uma peregrinação à Índia, três anos após aquele país asiático ter anexado pela força os territórios de Goa, Damão e Diu.

A pompa e a circunstância das cerimónias em Fátima quase conseguiram fazer esquecer que Paulo VI decidira não ir a Lisboa, optando por ser antes hóspede em Fátima do bispo de Leiria.

No meio da multidão viam-se muitos “pagadores de promessas” como era habitual e alguns deles, uns fardados de soldados e outros não, regressados das guerras do Ultramar ou das Colónias como lhe queiram chamar, entenderam por bem manifestar dessa forma a sua fé naquela data, como em tantas outras peregrinações.

De qualquer, forma regista-se que a peregrinação do Cinquentenário foi efectivamente uma grandiosa manifestação de fé popular e que ficou registada na memória colectiva dum povo pacífico, mas que não se esquecia de que tinha a sua juventude, obrigatoriamente, envolvida em três frentes de guerra.

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