SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 12:33

Já lá vão 48 anos!

Como recordar é viver, há dias que nunca esqueceremos, e o dia 23 de Outubro de 1968 é um desses dias.

Era meio-dia em ponto quando o UÍGE silvou várias vezes a querer dizer que estava pronto para mais uma viagem, como Transporte de Tropas para a Guerra Colonial, neste caso para a Guiné.

O pessoal, de onde se destaca o Batalhão de Caçadores 2856 do RI 15 de Tomar, um Pelotão da Policia Militar e inúmeros militares em rendição individual, já tinha embarcado ao som de marchas militares. Os cumprimentos oficiais, da praxe, já tinham sido feitos. As escadas já tinham sido retiradas. O cordame também já tinha sido recolhido. E os dois rebocadores, que o haviam de levar até ao meio do Tejo, já estavam a postos.

No cais a multidão ainda era imensa. Os lenços brancos acenavam das varandas da gare a corresponder aos lenços que das amuradas do barco também acenavam. Eram as despedidas.

A banda militar estava a acabar os seus acordes e o UÍGE lá se encaminhou para o melhor local do Tejo para iniciar mais uma viagem de 5 dias até às terras da Guiné. Depois foi o passar sobre a Ponte Salazar a caminho do Oceano e tudo isso pareceu muito rápido. Depois foram cinco dias de mar e céu, com mais ou menos acompanhamento dos chamados peixes voadores, a passagem relativamente perto das Canárias e a chegada ao largo de Bissau a 28 de Outubro.

Foram só cinco dias, mas dias inesquecíveis. E como a maioria viajou nos porões, nessas grandes caves fechadas de onde só se via a luz do dia pela buraco por onde entrávamos, nem vale a pena dizer nada sobre essas “maravilhosas” acomodações. O ambiente era irrespirável. Mas era o que tínhamos. E lá aguentámos tudo aquilo.

Foi um bom princípio, sem dúvida, para o que nos estava guardado. Depois, bem depois, foram mais de vinte e cinco meses, passados todos naquela terra quente e húmida que, ao fim deste tempo todo, nunca mais consegue encontrar uma paz duradoura a que tem direito e de que tanto precisa.

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