SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 20:54

As férias, para quem as teve, já acabaram… para outros continuam

Acabaram as férias, para quem as teve, mas as distracções vão continuando, como se a vida fosse uma casa de segredos, uma quadrilhice ao mais alto nível.

É só ligarmos a televisão, especialmente à noite, para além dos serões futebolísticos cheios de treinadores de bancada, para além das telenovelas, as televisões estão cheias de jornalistas/economistas ou economistas/jornalistas, todos a mandarem os seus palpites apesar de alguns nem serem uma coisa nem outra, alguns certamente a fazerem fretes a quem lhes paga já que os seus salários, segundo consta, não são nada de especial. E as televisões pagam bem a esses comentadores mais ou menos residentes. Tudo isto e muito mais foi escrito pela jornalista Ana Sá Lopes no jornal “I” de 21 de Setembro onde ela dizia que um “jornalista radical, Serge Halimi, escreveu um dia que desde que os jornalistas começaram a viver com os salários das classes altas, nos bairros das classes altas, a ir aos restaurantes das classes altas, começaram instintivamente a defender os interesses das classes altas, dos banqueiros, dos grandes empresários, e a ignorar os trabalhadores comuns, que sobreviviam com dificuldades. Num passado remoto, o jornalista era um operário como os outros. Depois dos anos 80, as coisas mudaram”. E o resultado é o que vê.

A maior parte desses profissionais da informação e a forma como falam ou como escrevem, dá a entender nitidamente que nunca trabalharam numa redacção daquelas antigas, onde os jornalistas faziam carreira, subiam a pulso e raramente mudavam de patrão porque tinham que trabalhar para a carreira que estava à sua frente. Aliás nessa altura só havia dois tipos de patrão. Os da situação e as excepções à regra, os que eram da oposição nomeadamente a República, o Diário de Lisboa, o Noticias da Amadora e o Jornal do Fundão. E os da oposição tinham que trabalhar muito para evitar os cortes do lápis azul. Para os outros estava sempre tudo bem. Agora a coisa é bem diferente. Parece que está tudo do mesmo lado, a defenderem os interesses de quem “o” tem e o resto é conversa e por isso o nosso jornalismo é o que é.

Também é certo que os políticos também vão dando umas “deixas”, os chamados tiros nos pés, que esses profissionais aproveitam e exploram, confundindo o comum dos mortais.

Veja-se o caso dessa hipótese de novo imposto sobre o património. A coisa saltou cá para fora de forma estapafúrdia, sem cuidado algum, sem preparação e parece que, acima de tudo, sem haver acordo entre as partes que apoiam o Governo. E pronto. Logo o especialista José Gomes Ferreira veio afirmar aos quatro ventos que esse imposto iria afectar meio milhão de portugueses, a chamada classe média. Ia caindo o Carmo e a Trindade. Mas afinal parece que esse tal imposto irá abranger menos de 10.000 pessoas, alguns dos tais detentores de fortunas avultadas que se esforçam todos os dias a fazer fintas para não pagarem impostos. Não e só cá. É em todo o mundo. Os grandes safam-se sempre. E desta vez, se for como dizem, também não lhes irão muito ao bolso. Mas para eles, mesmo pouco que seja, o dinheiro é deles. Agora quando toca ao povão, isso não tem importância nenhuma para eles e o povo que se lixe.

Mas ainda voltando ao jornalismo que temos, vejam-se os ataques surdos, mas constantes, que os organismos europeus – e são tantos – nos vão fazendo. Até o Santana Lopes afirmou recentemente num programa na Rádio Renascença que está “farto de Portugal ser cobaia da Europa”. E ele tem toda a razão. O FMI sugou-nos até ao tutano. Passados anos, veio dizer que afinal a receita foi exagerada. Mas agora ameaça-nos com novos apertos. E os jornalistas portugueses onde é que estão para defenderem o país e esclarecer os portugueses? Até sobre o reconhecido escândalo da relação entre Durão Barroso e o Goldman Sachs, que segundo consta já vinha de longe, o que é que os jornais disseram? Acham normal estas anormalidades com certeza.

Claro que os jornais não falam das trafulhices do BPN, dos malabarismos do BES, do BCP, nem do BANIF, porque está tudo em segredo de justiça. Mas falam do Sócrates que também devia estar em segredo de justiça mas não está. Nem da Quinta da Coelha ou do Pavilhão Atlântico falam, quanto mais do resto.

O que vale, por enquanto, é que parece que vamos tendo um governo determinado em defender o seu programa de devolução dos valores que nos foram roubados pela Troika e para além da Troika, durante quatro anos. E essa determinação, com regras, com verdade e transparência não é reconhecida pela generalidade dos jornalistas, bem pelo contrário, já que o seu papel é outro. Mas se os objectivos forem sendo conseguidos paulatinamente, sem grandes espectáculos, pode ser que alguns deles metam a viola no saco e vão tocar tangos para outra rua.

É assim, porreiro, pá.

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